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quinta-feira, 16 de julho de 2020

Limpeza e proteção - o básico

Muitas iniciantes leem sobre limpar a sua casa de energias negativas ou entidades, mas poucas são as pessoas que realmente recebem instruções de como o fazer da melhor forma. Espero que este texto sirva para ensinar os básicos. Estas dicas são aplicáveis a espaços, habitações, objectos e pessoas. Este texto não ensina como se livrarem de entidades perigosas como obsessores ou encostos, isto é o básico para iniciantes que ainda não fazem rituais e tudo mais. As pessoas geralmente pedem-me por feitiços de proteção e tudo mais, mas primeiro há que entender que nem tudo são "feitiços". Há muito mais trabalho que é feito por de trás.

Instruções

Vamos supor que esta é a tua primeira limpeza de todas - algo que recomendo que seja a primeira coisa que fazes na tua prática, não vale a pena fazer proteções se nem nunca fizeste uma limpeza. Ouviste falar de limpezas e purificações espirituais, mas não entendes como se faz. Bem, eu recomendo limparem primeiro o espaço e depois a vocês mesmes. A primeira coisa a fazer antes de uma limpeza e purificação é arrumar o espaço - isso é muito importante - e depois abrir todas as janelas. Nós queremos mudar por completo todas as energias. É isso que a limpeza faz. A purificação faz o que a palavra diz: purifica as energias já existentes, mas nós queremos começar do zero. É importante que todas as janelas estejam abertas, pois é meio inútil fazer uma limpeza de um espaço fechado, especialmente se for uma limpeza por defumação. Depois, é melhor começar pelo fundo da casa. Se a casa tiver mais que um andar, comecem pelo andar de cima. Façam o vosso caminho pela casa, passando por todos os cómodos/quartos, por todos os cantos dos mesmos, e repitam isto pela casa. Vão desde o fundo da casa até à porta. Quando chegarem à porta podem abri-la e mandar as energias sair. É muito importante fazer este percurso. Se fizerem na ordem errada fica confuso e não estão descansades que realmente levaram a energia realmente a sair de vossa casa. Isto aplica-se a limpar uma casa inteira e não o espaço para um círculo ou altar! 

Também é importante relembrar que a ordem mais indicada para estes processos é de limpeza, banimento e protecção. O banimento pode ser opcional, caso alguma entidade ou energia não tenha saído com a limpeza. Recomendo ler a minha publicação de bruxaria mais segura. Sugiro fazerem uma limpeza profunda sempre que sentirem necessidade mas façam disso rotina. Limpem a vossa casa espiritualmente, mas também a vocês mesmes (banhos, incenso, etc) pois muitas vezes as entidades/energias estão agarradas a nós e não somente a espaços. Estas limpezas servem para energia negativa acumulada, corta-bruxaria e para limpar de entidades que possam andar pelo vosso espaço que vocês não querem. No entanto, obsessores e encostos geralmente só saem com banimento. Não devem de proteger um espaço que ainda não está limpo, portanto a limpeza vem primeiro - limpeza, banimento, proteção. Primeiro, façam uma limpeza, e depois é que fazem os vossos rituais de proteção. Repeti-me muitas vezes, mas quero que isto fique claro! Na dúvida de que alguma entidade tenha ficado pelo vosso espaço, apliquem mais do que uma técnica de limpeza para ser bem profunda, para além de limparem também a vocês mesmes, como já afirmei. O uso de som é particularmente bom para expulsar entidades de frequência baixa. Para rituais de banimento simples - se são iniciantes cinjam-se pelos simples - vejam o site Oficina das Bruxas pois lá estão óptimos rituais para banir entidades e energias negativas. Banimentos ficará para outro post! Então, regras gerais: limpar todo o espaço do fundo da casa até à porta, manter as janelas abertas, arrumar e limpar tudo. 

Quais são os métodos de limpeza?
  • Defumação
    A defumação é o acto de queimar ervas. Tradicionalmente utiliza-se aquilo que se encontrava por casa, dependendo do objectivo do ritual. Aliás, na bruxaria utilizam-se coisas extremamente comuns: cebola, alho, sal, alecrim, pimenta, limão, entre muitas outras coisas. Não precisam de raiz de mandrágora ou qualquer outra erva específica para começarem a vossa prática.
    Bundles de ervas como sálvia (existem diversas espécies, não comprem sálvia branca proveniente dos EUA, mas sim outras variantes como as europeias), cedro, alecrim, entre outros. Muitas das ervas podem estar ligadas tanto a limpeza, purificação e protecção e ainda bem. Digam sempre às ervas o que querem que as mesmas façam. As coisas só têm significado se vocês lho atribuírem. Podem queimar o palo santo em pau ou em incenso (não recomendo por questões ambientais e culturais, mas sim outras ervas, é como o caso da sálvia branca, mas se for o que vocês têm em casa podem usar). Podem usar resinas, ervas com carvão litúrgico, incenso ou bundles. Podem usar estes fumos para limpar um espaço, objectos ou a vocês mesmes. Um simples incenso serve, não precisam de comprar para já um recipiente à prova de fogo para defumar ervas. Passem o incenso seguindo as instruções que eu disse acima. Para simplificar: queimem ervas de proteção da melhor forma que conseguirem, se não comprem incensos, sejam incensos de uma erva em particular ou então incensos específicos de limpeza. Basicamente, incenso pode ser em pau ou queimar ervas.
  • Água
    Existem várias formas de limpar um espaço com água e isto é especialmente útil se por alguma razão não podem queimar ervas em casa - leiam o meu post sobre bruxaria mais segura para entenderem o porquê de nem sempre ser boa ideia queimar incenso, resinas ou ervas.
    A mais básica e simples seria pegar numa taça de água e sal e salpicar pela casa fazendo o percurso que já ensinei. Façam isto em todas as divisões seguindo o percurso que descrevi acima.
    Também podem deixar uma taça com água (pode ser água da lua por exemplo), sal, algum cristal e ervas (limão é bom para isto, mas também alecrim ou lavanda) num espaço comum para absorver energias por uns dias, especialmente indicado depois de uma limpeza como com fumos. Este vídeo descreve essa prática o mais simples que existe. Isto chama-se cleansing bowls. As taças podem ter ervas e tornarem-se mais complexas. Esta água pode ter sido fervida ou não. Podem deixar a taça de limpeza o tempo que acharem apropriado. 
    Similar, podem ferver ervas numa panela. Só o cheiro em si ajuda. Encham o vosso espaço do vapor dessas ervas! Podem usar esse líquido das ervas para várias coisas também, pois a bruxaria é sobre reaproveitar tudo, e aí os usos vão variar: banhos espirituais, muito importantes, misturar com sal grosso e submergir o corpo/mandar a água no chuveiro nunca molhando a cabeça, estes banhos podem ter diferentes intenções mas a mais célebre são banhos de sal grosso para limpeza de más energias; podem usar para floor washes e limpar o chão com uma esfregona ou com um pano limparem as portas, janelas, paredes, ombreiras, tudo mais, é um passo super útil num processo de limpeza profunda; podem utilizar para sprays que podem usar nas várias divisões e até em vocês mesmes. Ao limparem as janelas e portas com água protetora (podem usar água da lua mais ervas, por exemplo) estão basicamente a criar wards. 
  • Outros:
    Besoms são uma forma tradicional de limpar um espaço. Podem também utilizar sons como sinos, taças tibetanas, bater palmas ou uma panela e uma colher de pau para um banimento eficaz. Visualização também é eficaz, aliás faz parte do processo em si. Existem imensas outras formas de limpeza, dependendo do que estão a tentar limpar. Vou aprofundar isto adiante.
Objectos podem ser limpos de diversas formas. Podem usar os métodos anteriores que disse  tais como: defumações, incenso, som, salpicar com água e sal, lavar simplesmente com água corrente, enterrar em sal ou na terra, utilizarem água da lua, limparem com visualização, passarem numa chama de vela, etc. Os métodos vão mudar para o que é mais indicado para cada objecto (há cristais que não podem estar submergidos em água e também não vão molhar as vossas cartas de tarot por exemplo - podem passar no incenso, usar visualização e guardá-las com um cristal que achem associado). E que objectos devem ser limpos? Idealmente instrumentos da vossa prática que têm tendência a cumular energias, tais como: cristais, cartas, amuletos, etc. A limpeza também é um dos primeiros passos de quanto adquirimos um novo instrumento, vamos supor que estão a iniciar um livro das sombras - devem limpar, purificar, programar ou consagrar, proteger, entre outras coisas, depende da vossa prática. 

Depois de uma limpeza básica como eu sugeri, podem fazer protecções básicas que não envolvem nenhum ritual, especialmente se agora ainda estão a começar! Um ritual simples de proteção pode ser com uma vela, mas há imensas outras coisas que podem fazer. Como? 

Sugestões de pequenas protecções:
  • Podem queimar incensos ou ervas que correspondem a proteção. Aplica-se aos métodos anteriores. 
  • Ao limparem as janelas, portas, etc com a água de ervas podem desenhar sigilos ou runas nas portas, etc.
  • A dica de ter cleansing bowls também se aplica aqui. Vai absorvendo a má energia ao longo do tempo para além de proteger. Sejam originais! 
  • Façam uma linha de sal em todas as portas e janelas ou até do lado de fora da propriedade. Se quiserem podem ir ainda mais longe e fazerem essa mesma linha de sal com sal negro (as receitas variam mas o básico é sal, pimenta, cinzas de incensos e caldeirões, carvão, entre outros ingredientes). Ainda podem ir mais longe e fazer cascarilha (pó de cascas de ovo; fervam as cascas para esterilizar, deixam secar e triturem; podem criar as vossas receitas, sejam originais, como misturar sal ou ate misturar com o sal negro).
  • Encantem itens, façam ou exponham amuletos, tenham cristais protectores dentro de casa, entre muitas outras coisas simples. 
Sugestões de protecção para praticantes mais avançados: após a limpeza, fazer um ritual de protecção; untar te a ti mesme com óleos de protecção também ou água da lua; criarem uma witches bottle, witches ball, spirit trap, entre outros.

O que fazer após limpeza e protecção? 

Isto é particularmente útil após uma limpeza profunda a uma casa inteira. É sempre indicado limpar o espaço e a nós mesmes para termos a certeza que está tudo limpo e purificado. Façam destas limpezas a vossa rotina. Depois da proteção podem acender uma velinha branca, queimar um óleo ou acender um incenso que traga energias positivas. Após um espaço estar vazio de energia, qualquer energia negativa que entrar vai ser muito pesada. Preencham já o espaço com alguma energia positiva para não sentirem o espaço vazio. 

Conclusão

Termos para pesquisa avançada que sugiro: banhos de sal grosso, limpeza e descarrego; cleansing baths; cleansing bowls; ervas de limpeza e proteção; spray de limpeza; entre todos os outros termos que já usei ao longo do texto. Estudem as correspondências dos itens. 

Outras coisas que podem fazer antes do vosso banho espiritual é tirarem o mau olhado com água e azeite ou ovos. Investiguem ambas as técnicas se não conhecem ninguém que vos possa ensinar. Podem requerer prática, especialmente no caso dos ovos, pois essa última é uma forma de tanto absorver energia negativa como de divinação. Mais uma vez, a prática é totalmente vossa. Podem começar por tirar o mau olhado e depois fazerem um banho de limpeza ou vice-versa. Podem fazer banimentos com a terra em que libertam a energia negativa para a mesma ou até banimentos em que queimam aquilo que querem deixar para trás (nem todo o banimento é sobre entidades). Existem tantos pequenos rituais que vocês vão encontrar nos vossos estudos, portanto não se apressem no vosso caminho.

Espero que estas dicas ajudem para o básico dos básico de como ir criando e desenvolvendo uma boa rotina espiritual! Bons estudos 

domingo, 12 de abril de 2020

Breve introdução à bruxaria

Este texto faz parte da minha série de introdução a vários temas. No nome está "breve" pois é isso mesmo: é o básico dos conceitos e da história para aqueles que não fazem ideia do que são práticas de bruxaria fora do contexto de fantasia! Este texto estará dividido em pequenas partes para facilitar a compreensão.

Aviso que não consigo falar por todas as tradições e, sendo uma introdução, não vou falar das minhas práticas, no entanto estas influenciam o texto pois sou uma bruxa neo-pagã. Considero, e espero mesmo, que seja um texto útil para iniciantes e pessoas curiosas. Respeitarei ao máximo todas as tradições, culturas, espiritualidades e religiões associadas e que irei mencionar, portanto peço que façam o mesmo. Não aceito comentários intolerantes, racistas, discriminatórios, entre outros. Para além disso, não consigo tocar em tudo o que envolve práticas de bruxaria, pois existem imensos conceitos: altares, livros das sombras, espiritualidade, ferramentas, entre outros.

PS: também poderei ter alguns termos que não sei bem traduzir

Conceito

A bruxaria é um conjunto de práticas difícil de definir. Podendo, portanto, envolver manipulação da realidade, manifestação de intenção, divinação, entre outros. No fundo, a bruxaria é a prática da magia e muitos dos seus aspectos estão intercalados com filosofia e religião, mas não há nenhuma restrição. Sendo uma prática, a bruxaria não tem, portanto, religião ou cultura associada de forma intrínseca. E, mais uma vez, sendo uma prática, qualquer pessoa pode praticar aspectos de bruxaria e magia, sendo comum a várias culturas, tradições e religiões. Em suma, não existe um único caminho para a bruxaria. A magia é a prática de manipular energias. No entanto, nem todas as práticas mágicas são consideradas bruxaria. A bruxaria pode ser considerada um sistema por si ou um estilo de vida. Existem pessoas que praticam outras vertentes da magia e que utilizam outros títulos como magistas. Recomendo a leitura da minha publicação acerca de alta magia vs. baixa magia. Aí pode entrar a questão que curandeiras, benzedeiras, herbalistas, médiuns e adivinhos têm um pé no mundo na magia e bruxaria, mas podem não utilizar o título. O mundo da espiritualidade alternativa é muito vasto. 

Para deixar aqui algumas distinções, de forma a me fazer entender da melhor forma: quando digo religião estou a referir-me a espiritualidade organizada; quando falo de diversas espiritualidades e religiões, quero deixar bem claro para não as confundirem com bruxaria. Quando digo que bruxaria não tem religião, estou a querer dizer que é de todo separada da mesma, podendo ser adaptada a todos os credos. Portanto, bruxas cristãs também existem e afirmo que são muito comuns em Portugal (a minha avó era uma). Isto deve-se à bruxaria e a sistemas mágicos originarem das religiões europeias iniciais. Quando o cristianismo foi levado para a Europa, estes sistemas também foram apropriados. Isso não quer dizer que o culto pagão não se tenha mantido, pois existem vários registos do mesmo. Existiram vários grupos de praticantes de bruxaria pagã na Europa, mas também existiram praticantes cristãos de algum sistema similar que foram perseguidos. No fundo, o cristianismo tinha medo de muita coisa e não discriminava, fossem pessoas com dons, padres que praticavam magia e escreviam grimórios, ou grupos pagãos. E a bruxaria, sendo um conjunto de práticas heterogéneas, a mesma encontra-se em todo o mundo e em todas as culturas, não tendo nenhuma em específico associada. Alguns nomes de tradições que entram dentro da enorme abrangência de bruxaria são voodoo, hoodoo, brujeria, santeria, umbanda, magia tradicional nativa americana e nativa-tribal africana e os seus sincronismos, como também a enorme relevância das tradições pagãs e folclóricas europeias, especialmente nos locais em que o cristianismo chegou de forma menos tardia, logo a sua influência foi menor. Portanto, não é uma prática uniforme e varia consoante o fundo cultural e a tradição de cada praticante. E a bruxaria também pode envolver práticas que nem todos poderiam considerar como bruxaria por si, mas que são comuns entre os praticantes, como por exemplo: astrologia, divinação no geral, reiki, entre muitos outros.

Na Europa podemos encontrar raízes da bruxaria actual no paganismo, com a prática de feitiços, oráculos, medicina tradicional, religiões de mistério, xamanismo, entre outros. Após a implantação do cristianismo, várias práticas continuaram vivas como pelos termos de cunningolk, as mezinhas e ervinhas, tirar o mau olhado, utilização de pêndulos, magia popular e simpática (simpatias), muitas destas que foram comuns até aos tempos dos nossos avós - pela minha experiência e falando da minha geração. Ao longo do tempo, estas práticas foram se tornando menos comuns, também pela forma com são retratadas como sendo apenas fantasia nos media.

Existem vários livros e fontes acerca da história do ocultismo e misticismo em Portugal, mas também no contexto mundial. Neste país tivemos muitos momentos em que a história do ocultismo se intercalou com a história comum, como por exemplo Fernando Pessoa ter sido um ocultista e astrólogo conhecido por ter ajudado Aleister Crowley, um dos ocultistas mais famosos, a fingir o seu suicídio na Boca do Inferno, e Pessoa ajudou-o com todo o esquema mediático que veio por de trás, para além de ter sido afirmado que Pessoa corrigiu o próprio mapa astral do Crowley. 

O ocultismo eventualmente caiu nas sombras mas começou a sair das mesmas utilizando os media da altura, tornando estas figuras famosas. Já na época vitoriana havia um crescente interesse pelo misticismo, especialmente pelo trabalho com espíritos, tal que eventualmente culminará na escola de kardecismo e espiritismo, com ideias de mediunidade, entre outros. No entanto, grandes ordens ocultistas que praticavam alta magia sempre existiram. Foram estas figuras que moldaram o ocultismo moderno, mas isso não quer dizer de todo que seja um assunto recente. 

Em inglês, bruxaria (witchcraft) também é apelidado de "the craft" e é uma prática em si não religiosa que pode ser combinada com qualquer espiritualidade, em que muitas vezes se é pedido o auxílio de divindades, espíritos, entidades, anjos, universo, entre outros. A bruxaria manipula a energia à nossa volta para iniciar mudança. Em português, a bruxaria é chamada de A Arte. A mesma pode envolver rituais, feitiços, propriedades das ervas, velas, cristais, rezas, meditação, manipulação energética, entre muitas outras coisas. A ação da mesma costuma subtil e os rituais podem durar umas horas, dias, semanas ou meses.

Wicca

Para não me alongar muito na história, saltarei para o século passado: vamos falar de uma religião recente cuja crescente popularidade tem intrigado as pessoas - vamos desmistificar a Wicca. O chamado criador de Wicca, Gerarld Gardner, britânico, começou por ter de lançar o seu livro Com o Auxílio da Alta Magia (High Magic's Aid - 1949) como se fosse uma narrativa fantasiosa, pois o seu coven* não o autorizou a falar do assunto abertamente no início. No entanto, há muita questão acerca desta figura, e que se terá sido ele o criador da religião moderna. Regra geral, pelo que eu compreendi, Gardner foi iniciado num coven desta religião, mas não sabemos ao certo a data de criação da mesma. 

*Coven: um grupo de praticantes de bruxaria; hoje em dia, um coven é mais entendido como um grupo organizado e hiearquizado que se junta para celebrar datas relevantes para a religião do mesmo ou para fazerem trabalhos em conjunto; comum na bruxaria tradicional, podendo ter sacerdotes e sacerdotisas; em português, a expressão é Conventículo; outro nome em inglês é Convenant; já um Círculo é como alguns praticantes chamam a grupos de amigos e conhecidos que se encontram casualmente, no entanto estes significados podem variar consoante as pessoas e as tradições, pois o termo mais comum aplicado é Coven. 

Apesar de ser um velho nudista (estou a tentar ser humorosa), Gardner conseguiu popularizar bastante a religião, esta que já se dividiu em várias tradições e evoluiu ao longo do tempo.  Então, o que é que a Wicca se relaciona com este assunto do texto? 

Não me irei alongar demasiado sobre esta religião, pois seria injusto só me focar neste elemento, para além de não ser praticante nem adepta desta religião em específico (e também é um tópico digno de uma publicação por si), mas o facto é que a bruxaria é relevante para aqueles que já ouviram falar de religiões neo-pagãs como Wicca, esta mesma que envolve práticas de bruxaria. Originalmente dualista, a religião prega o culto de um Deus e de uma Deusa, mas o politeísmo coexiste dentro da mesma de diversas formas, algo que varia consonante o praticante e a tradição - este assunto é um pouco controverso dentro da comunidade, mas estou a falar de forma geral, pois os praticantes não têm um só entendimento acerca deste assunto. Wicca original pode ser chamada de Wicca Tradicional e cujas ramificações mais comuns são a Wicca Gardneriana (segue a tradição de Gardner), Alexandriana (tradição de Alex Sanders), Feri (fundada por Victor Anderson), Dianica (mais focada na Deusa), entre outras. Porém, também surgiu a Wicca solitária, popularizada por Scott Cunningham com o seu livro Guia Essencial da Bruxaria Solitária (A Guide for the Solitary Practitioner - 1993), tão popular que até teve um seguimento. Recomendo muito este autor, pois todos os seus livros são excelentes, quer os leitores pratiquem ou não a religião Wicca.

Algumas diferenças entre estas duas formas da religião é que a Wicca tradicional é praticada em grupo (coven) e requer iniciação. Já a Wicca solitária é uma forma de prática individual, com as "divisões" mais populares da bruxaria no geral, tais que irei falar mais à frente, como bruxaria natural ou elemental. Esta é mais flexível em termos de práticas. É também falado de auto-iniciação destes crentes. 

Wicca, sendo uma religião, tem princípios e dogmas e práticas que lhe são característicos, e como qualquer religião exige prática e estudo. Na Wicca, os Sabbats são as celebrações do sol, portanto do Deus, e os Esbats as celebrações da lua, portanto da Deusa que é considerada tripla. Existem muitos mais aspectos desta religião, atenção que não estou a referir tudo! A Wicca vai beber muito do que seria a mitologia e espiritualidade dos povos celtas maioritariamente, mas existem outras tradições populares no neo-paganismo que não se limitam a estes povos, incluindo inspirações na antiga religião egípcia, suméria, grega, entre outros. Fazendo uma ponte ao próximo tópico, muitos dos países destas religiões experienciam um movimento crescente de adeptos das religiões antigas, estas que "morreram" há séculos. 

Neo-Paganismo

Para poderem compreender melhor o que eu disse, tenho de falar um pouco de paganismo vs. neo-paganismo, visto que é uma associação comum na bruxaria, no entanto é preciso destacar a ideia de que nem toda a bruxaria é pagã! Neo-paganismo seria uma designação abrangente para diversas religiões e espiritualidades. Difere de certa forma de reconstrucionismo politeísta/pagão, daí o termo "neo", o que não quer dizer que todos os pagãos gostem de utilizar os mesmos termos. Regra geral, neo-paganismo inclui tradições como Wicca e Druidismo, enquanto outros pagãos podem não se sentir tão confortáveis a utilizar o termo neo pois querem recriar, da melhor forma e dentro do possível, as religiões originárias pagãs, tais como tradições que seguem politeísmo nórdico ou greco-romano. 

O neo-paganismo é um movimento moderno que incorpora práticas e crenças fora do espectro das religiões abrâamicas, tendo especial atenção ao culto da natureza. No entanto, nem todos os pagãos são praticantes de bruxaria, e até muitos Wiccans seguem mais os aspectos espirituais do que práticos. O paganismo é focado na interconetividade e sacralidade do mundo natural e do universo. Muitos pagãos consideram que a humanidade está desconectada da natureza e isso resulta em muitos problemas sociais actuais. Muitos pagãos também são panteístas pois acreditam que o divino é algo de que também fazemos parte, no entanto paganismo também se refere ao politeísmo (por vezes usado como sinónimo) e ao animismo. Paganismo é, portanto, uma vertente espiritual. 

Para explicar melhor, a Wicca é uma religião por si, portanto nem todos os neo-pagãos são wiccans, como já enumerei tradições dentro dessa espiritualidade como Druidismo. Para além disso, muitos neo-pagãos não aderem a nenhuma tradição específica. Neo-paganismo é um conjunto de espiritualidades, neste que se inserem algumas religiões modernas! Esta confusão é comum, pois Wicca é tão popular que é difícil escapar da sua influência nos livros e nos media. E, como já afirmei, nem todos os praticantes de bruxaria são pagãos ou sequer wiccans, pois a bruxaria é uma prática sem religião associada. Já todos os wiccanos (se for assim que se diz em português) são neo-pagãos, e muitos reclamam o termo de bruxos, devido às práticas da mesma religião. 

Cada tradição vai, portanto, ter práticas muito diferentes das outras quando misturadas com bruxaria.

Sincronismos

Quanto ao cristianismo, a mistura deste com a bruxaria vai para além do que seriam simplesmente bruxas cristãs, podendo se encontrar sincronismos do mesmo. Falando brevemente de duas distintas tradições, temos o Voodoo que é uma tradição que se divide em New Orleans / Louisiana Vodou e Haitan Vodou, sendo uma tradição mais organizada que requer iniciação, e depois também existe o Hoodoo que tem na sua base o que seria folk magic originária do continente africano, tal como Voodoo, no entanto este segundo chama os Loas/Lwa (semelhantes aos Orixás) por via de santos católicos, enquanto Voodoo utiliza as divindades africanas. Hoodoo também é chamado de rootwork ou conjure. Outras práticas semelhantes seriam a religião yorubá que influenciou práticas como Candomblé e/ou Santería. Existem imensas tradições de que poderia falar, no entanto só pretendia dar uma imagem geral para as pessoas entenderem que de facto estamos a falar de um assunto muito vasto e que se encontra em todo o mundo.

Aviso: por favor não apropriem estas práticas! O básico da magia branca já o fez sem dar créditos e vocês não precisam de o repetir também. E também não vou tolerar comentários racistas em relação a estas práticas que são lindas e cuja base é o trabalho com ancestrais, divinação, entre outras, e não há nada maligno sobre estas mesmas. Por favor repensem o quão racistas são as representações das mesmas nos media, como por exemplo quando mostram as espiritualidades dos nativos americanos e povos indígenas como sendo só acerca de maldições. Basta entrarem em qualquer loja esotérica em Portugal para verem a enorme diversidade de tradições representadas e podem reparar na quantidade de artigos que são específicos para cristãos e outras tradições como afro-brasileiras, nem tudo é só sobre práticas mais modernas ou apenas influências europeias. Eu foco-me mais em tradições ocidentais / europeias, mas não permito que o meu blog tenha espaço para intolerantes.

Divinação

Muitas das questões que recebo são acerca de divinação, pois as pessoas acham este assunto muito fascinante. É uma forma de sabermos mais acerca de nós mesmos e também sobre o futuro. Algumas formas comuns de divinação:

Cartas: a utilização de cartas pode se dividir em vários grupos, mas os mais comuns são as cartas de jogar, oráculo e de tarot. Tarot é das formas de divinação mais populares, sendo este um método de divinação e ferramenta espiritual que utiliza um oráculo específico composto por 78 cartas. Já fiz uma publicação acerca de tarot, podem carregar aqui se quiserem ler. Foco-me no tarot tradicional mas também toco um pouco em outras tradições como Lenormand. Também está para sair uma breve publicação acerca de cartas de oráculo.

Runas: um oráculo moderno geralmente utilizando antigos alfabetos nórdicos (rúnicos), sendo o mais comum elder futhark, mas também podem ser inscritos outros símbolos que derivam ou não destes. Há muito debate acerca desta prática, no sentido de se é possível comprovar o uso histórico das mesmas, ou se é apenas uma recriação moderna. O uso das runas também evolui na época medieval, como por exemplo com as runic staves.

Similar a runas, também existem tradições que "lançam" pequenos objectos como conchas e ossos, comuns em tradições afro-brasileiras. As leituras deste tipo de oráculos podem ter origem na intuição do leitor, na posição e formas que os objetos fazem e/ou nos significados associados a cada um destes. Há quem não lance as runas, mas sim abane um saco e tire algumas, e ainda há quem as posicione como se fossem cartas em diversas formações.

Pêndulos: uma forma simples de divinação utilizando um objeto pesado suspenso por um fio. Os usos são variados, como responder a perguntas de sim/não, encontrar objectos perdidos, comunicação com espíritos, entre outros. O seu uso é antigo e muitos dos vossos familiares devem de o praticar ainda nos dias de hoje. Parece ter origem na tradição de dowsing.

Borras: ler borras de chá e café também é uma forma antiga de divinação. A interpretação provém da intuição do leitor, das formas que as borras fazem e/ou do seu posicionamento na chávena. Regra geral, primeiramente a pessoa a quem se vai fazer a leitura pede um pouco do líquido.

Scrying / Perscrutar: tem a ver com entrar num estado de trance olhando para uma superfície reflectiva (geralmente água, espelhos negros e/ou feitos de obsidiana ou bolas de cristal feitas de diversos cristais - se forem transparentes, costumam ter uma percentagem de vidro; muitas vezes também são feitas de obsidiana). Também já li quem o fizesse através de fumos, apesar de ser discutível se essa prática pertence a esta categoria.

As práticas de divinação são imensas. A lista nunca mais iria acabar, para além de se poder escrever imenso acerca de cada uma delas.

Necromancia, dons e fadas

O objectivo da divinação é variado, mas um deles é a necromancia, ou seja, a comunicação com espíritos / spirit work. Tal é feito de ainda outras formas diversas. A mais popular são ouija boards. Apesar da imagem moderna ser sobre "ressuscitar os mortos", na realidade necromancia seria apenas uma forma de divinação através dos mortos, obtendo respostas através da comunicação com espíritos. Falar com os mortos pode trazer-nos muito conhecimento. Este tipo de divinação pode ser feita de diferentes formas como invocações, divinação com ossos, pêndulo, e muitos outros rituais.

Isto levanta a questão: para alguém se envolver em bruxaria, seria necessário algum dom? Quais são os requisitos? Apesar da meduinidade ser um assunto comum e existirem diversas formas da mesma, a nossa percepção actual foi muito influenciada pelo espiritismo. Existem certos dons, mas qualquer pessoa pode trabalhá-los, juntamente com a sua intuição. Portanto, eu afirmo que não há requisito de dons psíquicos, ou qualquer requisito de todo. Não é necessário pertencer a uma família de bruxos ou a alguma tradição de todo. Para além disto, a comunicação com espíritos não se limita apenas a espíritos humanos. Muitos praticantes trabalham com diversas entidades e divindades, como ancestrais, elementais, fadas (não são as da Disney), espíritos guias, anjos, santos, daemons, entre outros.

Bruxaria no dia-a-dia 

A bruxaria é algo que pode envolver o quotidiano de uma pessoa, especialmente se esta estiver ligada a alguma prática ou tradição espiritual/religiosa. Quando falamos de algo que envolve o nosso dia-a-dia, tal vai depender da visão que essa pessoa tem do mundo. Fazendo uma ponte para o nosso próximo tópico, uma das religiões e espiritualidades mais populares que utiliza práticas de bruxaria é o neo/paganismo - e esta é a tradição que me sinto mais confortável a falar sobre. Apesar de nem todos os crentes se envolverem em práticas de bruxaria, uma grande maioria considera-se um ávido praticante da mesma. Portanto, a espiritualidade e estas práticas acabam por se misturar bastante. Um crente irá chamar pelos seus deuses durante as suas práticas e rituais para pedir auxílio ou irá fazer um altar consoante aquilo que acredita.

Altares é algo abrangente a todas as religiões. Os crentes costumam criar altares consoante aquilo que acreditam. Basta tirar o exemplo dos altares do Dia de Los Muertos, ou os altares específicos da religião Wicca, estes com um esquema específico orientado para a visão dualista da religião. Altares servem para honrar deuses / divindades, ancestrais, para realizar trabalhos e rituais, para honrar a roda do ano, ou simplesmente para depositar as ferramentas que os praticantes usam. Também são criados altares de foco / manifestação.

O tópico da bruxaria no dia-a-dia seria bastante longo, mas quis deixar aqui este pequeno texto pois nem todos os praticantes apenas fazem rituais de alta magia a cada mês. Muitos praticantes têm um culto constante que se interliga com a bruxaria.

Sobre a roda do ano 

Este é um conceito do neo-paganismo europeu que pega em diversas festividades de diversos politeísmos ocidentais, na sua maioria. O conceito de roda é muito familiar aos celtas. Estas festividades consistem em eventos astronómicos, mas também culturais. O tema mais comum destas festividades é o culto da natureza nas suas diversas formas ao longo do ano, algo comum na bruxaria pois a maioria das práticas envolvem muitos objectos naturais como cristais e ervas.

Estas datas são sagradas e também utilizadas como altura ideal para diversos rituais. Estas festividades têm, na sua maioria, origens comprovadas nos paganismos originários europeus. Estas festividades na Wicca chamam-se de sabbath e são as celebrações do Sol. É possível mencionar as festividades mais comuns, no entanto há praticantes que seguem certas tradições como o politeismo romano que tem festividades próprias que não se encontram nas imagens populares do instagram da roda do ano. De forma geral, o solstício de inverno é a noite mais longa do ano (Yule, nome de origem nórdico) e tem o seu oposto que é o solstício de verão (Litha, nome nórdico; Midsummer, apesar desse nome nem sempre se referir ao fenómeno astronómico específico), sendo o dia mais longo do ano. Entre estes teremos os equinócios de outono (Mabon, nome celta) e da primavera (Ostara, nome anglo-saxónico/germano) em que se atinge o equilíbrio. Estes seriam os quatro festivais principais do sol. O nome destes festivais pode variar e nem todos os praticantes seguem estes mesmos. Ainda existem outros festivais, como Samhain (não se pronuncia como se escreve, já agora) proveniente da cultura celta, sendo esse o último dos 3 festivais de colheita (Sendo estes Lammas / Lughnasadh, nome celta, seguido de Mabon, e por fim Samhain), ligado ao culto dos mortos, entre outras associações. Também existem os festivais do fogo, como Beltane, outra altura em que o designado véu entre os espíritos e os vivos está mais fino, sendo este no oposto da roda do ano a Samhain. É aconselhável ver imagens online pois ilustram bem a ideia de "roda" do ano, esta que tem origem na visão cíclica celta e não seria uma visão comum a todos os povos pagãos, apenas uma recriação moderna.

Os eventos astronómicos iriam depender se eram ou não observados pelos povos em questão. E, como referi, há muitos outros festivais que apenas têm um fundo cultural destes povos, muitas vezes ligados a divindades específicas dos politeísmos antigos. Logo, a roda do ano não reflete todos os neo-pagãos, apenas é comum na Wicca e é uma forma de uniformizar as práticas, mas nem todos os crentes seguem ou festejam os mesmos festivais. No hemisfério sul, as datas destes festivais seriam, em teoria, invertidas - quando estamos a festejar o solstício de inverno, o hemisfério sul festeja o de verão; no entanto, nem todos os praticantes do sul invertem as datas de todos os festivais, uns apenas o fazem nas datas astronómicas e não nas datas culturais.

Astros

Quando falamos de eventos astronómicos, também não nos podemos esquecer da influência da astrologia na bruxaria. Nem todas as tradições de bruxaria utilizam o sistema ocidental de astrologia, mas é um tópico comum na bruxaria moderna. Na Wicca, os Esbats são os rituais de lua cheia. A lua é um dos tópicos mais populares! Um conceito interessante é o de astrolatry ou astrotheoloy, sendo este o culto e divinação de astros e outros corpos celestes, muito comum nos politeismos antigos, como na antiga religião greco-romana. Um artigo muito interessante sobre isso seria este aqui.

"The thesis that these bone markings also reflect the “moons” or menstrual periods of women is likewise sound; hence, it has been suggested, women were the “first mathematicians.”
Retirado do link que deixei acima

Muitos praticantes seguem as fases da lua e consideram que certas fases são ideias para fazer certos rituais ou para a manifestação de intenções. Originalmente, a astrologia e a astronomia foram um só saber, logo os eventos astronómicos também têm o seu significado na astrologia, como os eclipses. O básico da astrologia, mas mesmo básico, começa pela leitura do mapa astral, como se fosse um "print" do céu no dia, hora e local exacto do nascimento de uma pessoa. No entanto, os astros movem-se todos os dias, e são estas posições e os aspectos que os planetas/astros fazem que a astrologia analisa de forma diária, dessa forma fazendo previsões, criando horóscopo, entre outros. Para além disso, a astrologia tradicional é muito diferente da astrologia moderna, sendo que a primeira tinha um foco mais exterior, enquanto a mais recente tem um foco na personalidade das pessoas, e não tanto em previsões. As bases da astrologia provêm da antiga babilónia. A astrologia costuma se dividir nos planetas e nas casas. Os planetas costumam ser categorizados em planetas pessoais, sociais e transpessoais / geracionais.

Como a bruxaria utiliza muitas correspondências, não só as fases da lua, há quem pense até ao pormenor da hora e o dia da semana para os seus rituais. Os dias da semana são todos pagãos, excepção em português por uma razão muito idiota que nem vale a pena mencionar. Dando o exemplo: Monday, seria o dia da lua, em espanhol Lunes; a Terça-Feira está ligada a Marte, como em espanhol Martes e em inglês Tuesday vem do deus germano Tyr.

Ferramentas

Quando mencionei os altares também falei de ferramentas, estas que vão mudar, como já devem de esperar, consoante a tradição. Eu sigo a ideia de que qualquer coisa pode ser uma ferramenta de bruxaria, desde que seja separada do uso mundano (e desde que o praticante a sacralize da forma que achar melhor). Não posso falar das ferramentas de todas as tradições, e já mencionei algumas no trecho da divinação, mas deixo aqui um exemplo de uma ferramenta comum na Wicca que é a Bowline, esta que serve para o corte físico de coisas como ervas, e o Athame para cortar e direccionar energia em termos ritualísticos. Isto foi apenas um exemplo, pois nenhuma ferramenta é estritamente necessária, pois as práticas de cada um são totalmente diferentes e ninguém é obrigado a seguir nenhuma tradição. Agora em Wicca, mais cerimonial, várias ferramentas são necessárias. Outras coisas que não seriam consideradas propriamente ferramentas como já mencionei são objectos como incensos, cartas, cristais, ervas, velas, entre outros. Estes itens são chamados de "props" em rituais.

Cristais são itens comuns na bruxaria mas não são específicos da mesma, pois as práticas são muitas. Há quem os utilize em rituais para representar energias e também podem ser utilizados em meditações, em curas, em trabalhos, entre outros. Já ervas são utilizadas em rituais de diversas formas para representar a intenção que pretendemos alcançar ou então mesmo para as suas propriedades medicinais. Aconselho sempre verificarem as tags do blog se quiserem ler sobre algo em específico.

Bruxaria: a variedade

Outros conceitos comuns na bruxaria moderna e na teoria mágica é a manipulação energética, como grounding, centering, curas energéticas, fazer círculos mágicos, entre outros. Estou completamente a me esquecer das traduções destes termos em português, mas vocês entendem a ideia. O uso de círculos energéticos é mais comum na Wicca, sendo uma das suas práticas mais cerimoniais, com a função de proteger um ritual de energias que possam interferir, como também para criar um espaço para conter a energia que é elevada durante o mesmo ritual, especialmente em rituais de grupo. No entanto, não é necessário o fazer, mesmo que todos os wiccans do mundo digam que sim, visto que existem tradições mágicas desde sempre que não utilizam este conceito. É aconselhável proteção nos rituais, mas essa pode ser alcançada de diversas formas, consoante a tradição de cada um. Não estou informada até que ponto existe o conceito de manipulação energética noutras tradições para além da europeia.

Os trabalhos mais comuns de bruxaria em termos de feitiços e rituais podem envolver qualquer um dos elementos (em Wicca é comum dividir os trabalhos pelo elemento principal, e também na bruxaria elemetar), como utilização de fogo (velas, por exemplo), no entanto utilizam-se muitas outras coisas, como jarros, frascos, pequenas bolsas, fetiches / poppets / bonecos, entre outros. A variedade de rituais é imensa e podem ser tão simples ou tão complicados e cerimoniais como uma pessoa os quiser fazer. Aconselho lerem a minha publicação acerca de alta magia cerimonial vs baixa magia! Os objectos utilizados podem ser quaisquer, como espelhos, fios, cristais, ervas, petições, entre outros.

A bruxaria pode se distinguir por diversos elementos, tais como: a religião (cristã, pagã, etc); tradição específica a que pertence (paganismo pode se dividir em politeísmo grego, wicca, druidismo, etc); solitária ou em grupo; alta magia ou não; entre muitos outros termos. Um dos tipos mais comuns de bruxaria é a chamada de ecléctica, isto que significa que retira práticas e elementos de diversas tradições. A bruxaria cerimonial ou alta magia bebe muito das ordens ocultistas ocidentais e incluí termos como cabala mística ou thelema. Também existe a bruxaria hereditária, ou seja, praticantes que descendem de uma família de praticantes, no entanto não existe exclusão mútua (existem bruxas hereditárias wiccanas). Ainda existem muitos outros rótulos criados pelos praticantes com o objectivo de 1) encontrar pessoas com práticas semelhantes; 2) focarem-se em algum tópico que gostam; 3) melhor se entenderem na comunidade. Esses rótulos incluem bruxaria cósmica, lunar, natural, elemental, entre outros. Os diversos tipos de wiccans também se aplicam aqui, muitas vezes chamados de "paths" (caminhos).

Tudo o que toquei neste post merecia uma publicação por si mesma, mas penso que um post de introdução a um tópico tão variado seria útil.

Perguntas frequentes
  • A bruxaria tem algo a ver com Satanás?
Apesar de existirem tradições do que seria chamado "left hand path" em alta magia cerimonial, e de também existirem praticantes de luciferianismo (satanismo teísta) ou satanismo de la vey, o conceito de Lúcifer / Satanás é cristão, logo nem todos os praticantes de bruxaria acreditam no mesmo sequer, e daqueles que acreditam poucos fazem culto ao mesmo. Nada contra quem faz trabalhos com essa entidade, no entanto não afirmo que seja o mais comum. Dentro do "left hand path" existem muitos outros caminhos, como o trabalho com demónios de forma geral. Se na crença de alguém a prática de bruxaria é um pacto com Satanás, quer a pessoa o esteja a fazer de forma consciente ou não, diria que tal não é razão para hostilidade, pois isso é uma interpretação pessoal. Ninguém é obrigado a se comunicar com uma certa pessoa, no entanto o respeito é uma obrigação para podermos conviver em sociedade, pois se formos por essa interpretação, muitas coisas que as pessoas fazem seriam pactos com o Diabo, logo não podemos ser selectivos nas pessoas a que mostramos respeito.
  • É possível se praticar sozinho? É necessário se praticar para se ter algum interesse e ler sobre o assunto?
Sim! E não! É possível alguém investigar, começar os seus estudos e práticas, mesmo que estejamos a falar de tradições de grupo, pois muitos destes implicam um ano e um dia de estudo sem contar com um ano de experiência para poderem pertencer ao mesmo grupo - tal vai depender. No entanto, existem religiões fechadas a iniciação. Ninguém pode impedir outra pessoa de ler sobre algo e de se interessar.
  • O que é necessário para se ser praticante? E por onde começar? Quais são os primeiros passos para quem tem interesse e quer experimentar? Há algum requisito?
1. Muita pesquisa, muito estudo, muitas leituras, documentários, entre outros. Apesar de bruxaria ser entendida como algo que empondera as pessoas, é preciso ter muito cuidado com utilizar o termo sem o praticar, pois isso vira a comunidade uma contra a outra, para além de nem toda a gente levar a bem. É tentador começar a utilizar o rótulo mal se descobre algo novo e fascinante, no entanto, tal como em qualquer tradição / religião, é preciso muito estudo e muita prática. Estamos a falar de práticas que muitas vezes estão envolvidas com espiritualidade. Tal como um cristão tem de saber os seus textos sagrados, a mitologia e a teologia, seguindo também as doutrinas da religião e prestando culto sério, com qualquer outra religião passa-se o mesmo. Como referi, muitas tradições têm o requisito de um ano de estudos para sequer se poder fazer iniciação / auto-iniciação.

2. Tentar encontrar comunidade, pois é muito mais fácil assim. Existem muitos sites, blogs, fóruns, entre outros. Eu própria estou a tentar unir a comunidade cá em Portugal (e fora também!) e tenho parcerias neste blog com pessoas da comunidade. Apps comuns são os Aminos de bruxaria. Existem óptimos sites para se pesquisar, como o learnreligions. Há também locais em Portugal onde os praticantes se costumam encontrar. É muito mais fácil aprender com a ajuda de outras pessoas, mesmo que pretendam manter uma prática solitária

3. Escolher uma tradição em que se focar, lendo um pouco acerca de várias, para ser mais fácil afunilar o conhecimento inicial. Não é necessário desistir da fé cristã para praticar bruxaria ou acreditar em algo que a pessoa não acredita como astrologia, usando como exemplo. Tendo sempre sensibilidade que existem religiões fechadas e abertas. É necessário compreender as várias tradições dentro da comunidade da bruxaria e respeitá-las. É preciso ser muito sensível com assuntos de apropriação cultural e tentar usar o vocabulário mais adequado que consigamos. Muito cuidado com os termos. Existem conceitos transversais a várias tradições, cujos termos, no entanto, são limitados a essas mesmas. Um exemplo disso seria "smudging", um ritual nativo americano utilizando fumos. Não é que o conceito de limpeza através da queima de ervas ou incenso seja exclusivo do mesmo de todo! Simplesmente este ritual é específico da sua espiritualidade. Ninguém fora destes povos é capaz de fazer o ritual, pois nem sequer o sabem fazer. Não se pode chamar de "smudge" a um líquido/spray de limpeza, por exemplo. Seria melhor utilizar termos abrangentes e que não ofendam as pessoas da comunidade. É, por isso, aconselhado fazer muita pesquisa. Também aconselho terem cuidado ao chamar de "fantasia" às histórias de certos povos, pois isso é muito ofensivo. Ter um interesse vasto é muito bom, mas não é demais reforçar o cuidado que devemos ter com a nossa linguagem.

4. Ter em atenção que conhecimento teórico lido no tumblr ou num amino não é o mesmo que ser praticante. Uma coisa é ter interesse pelo ocultismo, misticismo, esoterismo, mitologia, entre outros, outra coisa é praticar bruxaria - e bruxaria é uma prática. O básico é praticar aquilo que pregamos. Sendo uma prática, o tempo leva à perfeição. É preciso praticar muito e criar uma prática só nossa (já repeti esta palavra muitas vezes). Há quem passe anos para formar o seu caminho e descobrir o que funciona com eles. Sem contar que as nossas crenças pessoais estão sempre a se alterar - e isto implica respeitar as escolhas dos diferentes praticantes. Portanto, ser um investigador e ter muito afecto e interesse pelo paranormal não é ser um bruxe!

5. Não comprem coisas logo no início. Eu tenho uma drive de livros sobre ocultismo e bruxaria que disponibilizo neste blog. Poupem o vosso dinheiro e pensem nas fotos para o instagram depois! Não sejam alimentados pela ideia que têm de comprar cristais se, por exemplo, nem os vão utilizar nas vossas práticas - pois nem todos os bruxes os usam. Já partilhei na conta twitter do blog várias coisas sobre o materialismo na bruxaria. Forço muito esta ideia acerca de ferramentas, pois muitas pessoas compram as ferramentas da Wicca cerimonial para ficarem numa prateleira abandonadas. Recomendo primeiro lerem sobre o assunto, para entenderem aquilo que vos interessa, e comprem uma coisa de cada vez, à medida que vão estudando.

6. Não existem requisitos de religião, género, etnia, seja o que for. Qualquer pessoa pode praticar. Tudo está ao alcance de alguém aprender.
  • A bruxaria é real? Feitiços funcionam mesmo?
Não estou aqui para convencer que misticismo, paranormal, etc. são reais, só afirmo que estas práticas são comuns a diversas culturas e ainda estão presentes hoje em dia. Poucas pessoas fazem ideia, mesmo com a crente popularidade.
  • O culto à natureza é necessário?
Não. A bruxaria não tem religião associada. É um conjunto de práticas que não são uniformes.
  • X é moralmente correcto?
A moral é algo que vai depender de cada pessoa e da sua tradição. Não devemos impor as nossas crenças nos outros. Há que ser tolerantes, é uma obrigação num estado de direito democrático. Se na dúvida, verifica com a tua tradição se X é aceite se fazer (exemplo: a Wicca tem vários dogmas, uns que afirmam serem modernos ou não, tal dependerá da pesquisa individual de cada um).
  • Existe alguma interpretação de "como funciona"?
Muitos crentes que praticam bruxaria irão interpretar os rituais como similares a orações para os seus deuses/deus/divindade, outros vão interpretar como uma forma de manifestar intenção com o uso de manipulação energética e correspondências, entre muitas outras interpretações. É complicado de explicar a um público que não conhece teoria mágica. Não há uma única interpretação, em suma. Tudo irá depender da religião ou espiritualidade, se existir, e ao que a pergunta se referir (feitiços? cartas? astrologia?) para se responder de forma apropriada.
  • O que é o livro de São Cipriano?
É um grimório (termo que não mencionei no texto - era impossível referir tudo numa só publicação), ou seja, uma colectânea de rituais e feitiços. A sua má fama vem de ter alguns rituais duvidosos, como a famosa costura de boca de sapo. Não diferente muito dos outros grimórios. Os cristãos não gostam de bruxaria, logo há essa má fama, mas no fundo é um grimório cristão. É irónico. Não há nenhum perigo associado em tê-lo em casa.

Não toquei nem em um terço do que significa ser um praticante de bruxaria. Não falei nem metade das ferramentas, práticas, crenças. Se vocês são iniciantes ou baby witches, vejam a conta twitter do blog. Escrevi já uma thread de dicas para iniciantes com diversas sugestões de tópicos de pesquisa, de sites para consultarem, etc. Carreguem aqui para lerem a thread.

domingo, 5 de abril de 2020

Breve introdução ao Tarot

Este texto fará parte da minha série neste blog de introduções a diversos tópicos. O tarot é um dos métodos de divinação/adivinhação mais populares. Quer vocês tenham intenção de começar os vossos estudos e praticar leituras, ou quer vocês apenas pretendam se informar, por exemplo com a finalidade de eventualmente pedir uma leitura a alguém - apoiem as pessoas na comunidade - e queiram ter noção de como se procede e em que tipo de questões podem esperar algum esclarecimento por via das cartas, penso que este texto será esclarecedor do básico sobre o tarot. Irei aprofundar mais um pouco a estrutura do baralho ao longo do texto. 

Tarot é um método de divinação e, mais importante que isso, uma ferramenta espiritual e de introspeção. Este é um oráculo específico composto por 78 cartas. Todos os baralhos de tarot obedecem à mesma estrutura (excetuando o tarot de thoth), sendo compostos por: 

·         Os arcanos maiores (22 cartas) que representam fases da nossa vida, estruturas da consciência humana e ensinam lições de vida. Exemplos disso são as cartas da Roda da Fortuna ou da Morte.

·         E pelos arcanos menores (56 cartas), em que estes últimos são divididos por 4 naipes clássicos (ouros, espadas, copas e paus) e cada naipe possui 10 arcanos numerados e 4 figuras (pajem ou valete, cavaleiro, rainha e rei), e já estes representam situações da nossa vida mais mundanas e específicas, para além de poderem representar pessoas literais numa leitura com as quatro figuras pertencentes a cada naipe. Portanto, cada naipe possui cartas numeradas até ao 10 (exemplo: 9 de paus) e 4 figuras (como um Rei de Espadas). O primeiro número de cada naipe é chamado de Ás.

Tarot é um método de divinação como muitos outros e entra na categoria de cartomancia (divinação com cartas), esta última que se pode dividir em: leituras com cartas de jogar (baralhos comuns); cartas de oráculos; tarot; e ainda existem outras variantes.

Para esclarecer alguns termos, oráculos neste contexto são baralhos de cartas criados por algum artista, enquanto que Tarot é um sistema fixo cuja origem é bastante antiga e complexa. Os oráculos não obedecem a regras, sendo criados baralhos com qualquer número de cartas, e são acompanhados de um livro explicando como utilizar visto que cada baralho é único. O termo oráculo tem outros significados, mas vocês já podem ter visto por aí o termo "oracle cards". Irei fazer um texto dedicado a oráculos e a forma como diferem do tarot, pois este género de divinação é extremamente popular. 

NOTA: Um baralho de tarot que apenas possua os arcanos maiores (22 cartas) pode ser considerado um oráculo e não um baralho de tarot, pois o sistema não está completo, pelo menos do que apreendi do meu estudo.

Dito isto, todos os baralhos de tarot obedecem à mesma estrutura que mencionei acima, o que muda é a ilustração (arte). Um tarot tradicional é dito como seguindo o modelo de arte Rider-Waite-Smith (RWS), publicado em 1910, muito inspirado no baralho de Marselha.

A exceção em termos de estrutura é o baralho de thoth, como já mencionei, cuja escola vou deixar de fora pois não tenho conhecimento suficiente sobre de momento. Este baralho foi criado por Aleister Crowley. Saber ler tarot comum não significa saber ler este baralho específico, pois o sistema é substancialmente diferente, utilizando cartas diferentes.

Um outro termo que poderão ter visto nas lojinhas ou pela internet é de Tarot de Marselha, sendo este um dos baralhos dos quais o Tarot origina, como referi. As diferenças entre o RWS e este é que os arcanos menores do baralho de Marselha não possuem desenhos. A estrutura é a mesma mas aprender a ler as cartas a partir deste baralho (de marselha) é bem mais difícil com a falta de imagens, isto na minha opinião. Falarei disto mais à frente! Os baralhos de Marselha são usados como cartas de jogar ainda nos dias de hoje.

Para além disto, também existe o Lenormand que é uma espécie de versão simplificada de tarot, também chamado de baralho cigano. A história deste sistema é muito interessante. Apesar de existirem cartas similares entre lenormand e tarot, as leituras são bastante diferentes. Portanto, este não é considerado propriamente parte do sistema de tarot pois não obedece àquela estrutura fixa, possuindo menos cartas. Com as exceções tiradas do caminho, aconselho a todos investigarem sobre a origem do tarot e a sua história pois é muito interessante! Infelizmente este texto não é uma introdução à cartomancia, pois isso seria muito longo. Aconselho sempre a que façam a vossa própria pesquisa.

Existem várias interpretações do simbolismo das cartas de tarot, sendo um baralho de divinação antiquíssimo. Várias teorias surgiram acerca das suas cartas, como os arcanos maiores serem uma narrativa começando na carta do Louco (The Fool) numerada pelo 0, podendo esta ser posicionada no final ou como a primeira carta dos arcanos, apontando para uma visão cíclica da nossa vida. Para lerem mais sobre a Jornada do Louco (The Fool's Journey) carreguem aqui

Cada carta de tarot pode variar na sua interpretação de acordo com o leitor, mas também em relação à leitura em específico e a forma como está posicionada na mesma, para além de muitas outras condicionantes. O baralho escolhido pelo leitor pode apontar para alguma preferência na sua interpretação pessoal. No entanto, a arte em si não altera a estrutura do baralho e as cartas continuam a ser as mesmas.

Como escolher um baralho

Se vocês querem comprar um baralho, aconselho o RWS para iniciantes. As minhas razões são de que a maioria dos livros e fontes sobre tarot são baseados na iconografia de RWS, para além dos desenhos deste baralho serem mais intuitivos. Pegando num exemplo prático, um baralho de tarot em que as ilustrações são todas de gatos pode ser muito fofo mas é capaz de não possuir uma ilustração muito detalhada. Apesar da maioria dos baralhos se basearem nesta iconografia, penso que o RWS seja o mais indicado, pois as cartas representam muito bem o significado de cada carta. Resumindo, acho que para aprender a ler, associando significados a cartas, as ilustrações deste baralho facilitam imenso pois ilustram bem a mensagem por de trás de cada uma das cartas. A partir de um estudo inicial, cada praticante poderá formular as suas próprias interpretações a partir da sua experiência.

No entanto, podem escolher qualquer outro que se sintam conectados. Podem sempre aprender fora do tarot tradicional como o sistema do baralho cigano ou de thoth - apesar deste último ser mais complicado, no entanto! Cada um é livre de fazer aquilo que quer, para além de muitas pessoas se conectarem com um baralho que viram numa loja e ser essa a razão catalisadora para quererem aprender a ler. Também recomendo aqueles box sets em que vem um livro de introdução ao tarot personalizado a um baralho que vem em conjunto. Nunca comprei nenhum, mas resolve o problema de possuir um baralho cuja arte não corresponde com as descrições nos livros - logo não sabemos a razão do artista ter incluindo certos elementos nas cartas; por vezes, alguns baralhos vêm junto algum livro pequeno ou quase como que uma bula com algumas palavras-chave sobre as cartas, mas isto é muito insuficiente para alguém realmente aprender a ler (a excepção nisto seriam os baralhos de oráculo cujos livros têm de explicar aquele sistema complemente novo ao praticante, mas também oráculos não costumam possuir um sistema tão complexo como tarot).

Espero que me tenha feito entender! Ficam só algumas dicas da minha parte. Para além disso, alguns leitores optam por interpretar as cartas revertidas como tendo um significado algo diferente, algo que eu escolho fazer, pois para mim faz mais sentido. Também pretendo fazer um post sobre a questão das cartas revertidas num futuro próximo. Atenção que isto duplica o baralho, pois têm de aprender o significado do dobro das cartas. 


Uma análise mais profunda

Os arcanos maiores são chamados também de "trunfos". Estes representam arquétipos criados ao longo da história e são, portanto, situações/problemas que encontraremos no nosso caminho, sendo lições de vida que nos foram passadas pelos antigos. São fases da nossa vida e possuem significados muito profundos. Estas cartas representam situações nas jornadas pessoais de cada pessoa e todos nós passamos por estes episódios no nosso caminho de iluminação espiritual.  

Num ponto de vista formal, estas cartas representam fases mais longas da nossa vida e são mais difíceis de evitar do que arcanos menores. O futuro está sempre a se alterar e, portanto, acho necessário eliminar a ideia que divinação é apenas sobre "adivinhar" o futuro, que é também um dos aspetos por certo, mas principalmente tem a ver com uma profunda introspecção de quem nós somos e em que situação nos encontramos. É, portanto, mais do que para perguntas de sim ou não ou se ficaremos ricos no futuro. É possível ler sobre o passado, presente e futuro, no entanto o tarot principalmente traz ao de cima padrões na nossa vida. Uma leitura pode ser bastante emocional. 


Os arcanos menores são essenciais numa leitura. O que torna as leituras de tarot tão específicas são, muitas vezes, os arcanos menores, o que difere este sistema dos outros que já mencionei. Estas cartas são demonstrações de situações do quotidiano ou representações de pessoas com as figuras (court cards), que falarei mais à frente. Os arcanos menores estão divididos em naipes, como disse anteriormente, cujos nomes podem variar consoante o baralho ou tradição.


Sobre os naipes dos arcanos menores:

·         Paus / Wands são do elemento do fogo e estão associados a paixão, criatividade, energia, ideias, mas também ao verão e a começos. Esta é a energia primordial, força, determinação, ambição e expansão. 

Os aspetos negativos deste naipe estão geralmente associados a egoísmo, impulsividade, falta de direção ou de objetivo, ilusão, entre outros.

Quando aparecem muitos paus numa leitura, isso significa que estamos a lidar com algo que ainda está ainda para começar/a se iniciar. Aquele que recebe a leitura também poderá estar a procurar algum significado mais profundo na vida ou a tentar encontrar aquilo que o motiva. Geralmente estas cartas revelam-se em semanas.

·         Os copos são do elemento de água e representam emoções, sentimentos, relações, romance, fantasia, imaginação, amizades, conexões espirituais, entre outros. A estação associada é a primavera. 

Muitos copos numa leitura indicam que a pessoa está a lidar com conflitos emocionais, problemas amorosos, e que está a pensar bastante com as suas emoções invés de o fazer de forma lógica. Estas cartas representam as nossas respostas mais espontâneas.

Os aspetos negativos deste naipe podem incluir ter expectativas irrealistas, ser pouco empático ou demasiado emotivo, emoções reprimidas ou dificuldade de autoexpressão.

·         Espadas são do elemento de ar e estão associados ao pensamento, lógica, estratégia, força, opressão, coragem, razão, processos mentais, destino, comunicações, conflito, desafios, batalhas, ação, intelecto e mudança. Estas cartas são associadas ao inverno e a finais. 

A ação pode ser tão construtiva como destrutiva e tal pode resultar em batalhas, violência, inimigos e, portanto, os aspetos negativos deste naipe podem incluir a culpa, abuso físico e mental, sofrimento, raiva, etc. Estas cartas costumam demorar meses a se manifestar.


·         Ouros / Pentáculos são do elemento de terra e estão associados ao outono e à colheita. Representam a propriedade, autoimagem e autoestima, segurança, trabalho, carreira, criatividade, tudo o que é terreno, dinheiro, coisas materiais, mundo físico. São a realização de ideias e os seus ganhos.

Os aspetos negativos deste naipe incluem ganância, materialismo, luxúria, possessividade, irresponsabilidade, detrimento de outras áreas em prol de carreira, entre outros.

Cada naipe possui, portanto, 14 cartas, sendo 10 numeradas e as outras 4 as figuras (rei, rainha, cavaleiro, pajem).

As figuras (court card) são muito úteis nas leituras pois costumam apontar para pessoas específicas, mais do que situações. Um exemplo de uma figura seria a Rainha de Pentáculos. Geralmente as figuras significam a própria pessoa a quem se está a fazer a leitura ou pessoas na sua vida. Portanto, geralmente os reis simbolizam alguém que tem um papel de uma pessoa mais velha, um mentor ou alguém que admiram, entre outros, e visto que as figuras existem nos 4 naipes, cada uma destas cartas é diferente das outras. No entanto, nas leituras não quer dizer que uma mulher não possa ser simbolizada por um rei, pois isto está relacionado com a posição ou as ações da pessoa em relação à leitura em questão, sejam essas ações positivas ou negativas, e isto provoca a indagação de qual é o papel destas pessoas ou mesmo qual é o nosso papel em diversas situações.

Os arcanos maiores são também chamados de cartas do destino e representam eventos que vão ocorrer devido as leis do universo - fazem parte da jornada na vida individual de cada um. Já os arcanos menores acontecem devido à natureza humana. Portanto, os arcanos menores estão mais ligados aos aspetos práticos da vida (menos espirituais, mais mundanos) e têm uma influência menor e temporária. Uma leitura com muitos arcanos menores aponta para problemas do quotidiano.

Estas minhas análises são puramente fruto da minha experiência pessoal, pois eu acredito em analisar uma leitura também do ponto de vista forma – a numerologia, a prevalência de certos padrões no conjunto de cartas, a existência ou não de arcanos maiores ou menores e que naipes estão presentes na dita cuja. Muitas pessoas olham para uma leitura apenas se focando nas cartas em vez de observarem de vez em quando o panorama geral da mesma.

Espero que este texto tenha ajudado alguém que está a encontrar dificuldades para entender o sistema de tarot. Se vocês já possuem algum baralho, qual é? E quais são os vossos baralhos favoritos?

EM BREVE irei disponibilizar serviços de divinação! Interessados, fiquem atentos pois irei anunciar aqui e na conta twitter do blog.

A carta da Lua (18º arcano maior)
Esquerda: baralho de Marselha
Direita: Rider Waite Smith
PS: tive alguns problemas na formatação do texto e não consegui corrigir alguns problemas do espaçamento entre parágrafos, mas tentei o meu melhor!

quinta-feira, 19 de março de 2020

Introdução ao blog

Sejam bem-vindes ao meu novo projeto. Aviso desde já que tenho não nenhum caminho traçado. Sabia que não queria que fosse um guia imparcial sobre bruxaria, algo de que irei falar mais à frente, mas sim algo também sobre mim, as minhas ideias e também experiências. Provavelmente decidi criar um blog pois gosto bastante de falar sobre mim - ironia, na verdade gosto de escrever. Ao começar a fazer rascunhos para esta página apercebi-me que tenho mesmo muito a dizer que talvez possa contribuir de alguma forma para encaminhar iniciantes. Sempre enchi as minhas redes sociais com estes assuntos, mas não tinha público e nem plataforma para tal e já que era para falar sozinha ao menos que pudesse escrever o quanto me apetecesse.

Havia uma certa incerteza se um post iria ser algo como “guia básico de tarot” para ser seguido de outro sobre “nacionalizar os setores chave da economia: SIM ou SIM?”, mas estava disposta a tentar. Acabei por decidir focar-me nos assuntos de esoterismo, ocultismo, bruxaria, paganismo e misticismo e nas possíveis discussões à volta desse assunto como ambientalismo, sustentabilidade e alguma política. Mas, bem, nunca se sabe. O futuro é sempre incerto e tenho tendência a divagar. De verdade que gosto de trazer ao de cima diversos tópicos do que se trata ser espiritualidade alternativa, se é que esse nome é apropriado. Não quero que pessoas se sintam sós no seu caminho. 

É por isso que afirmo que a minha personalidade e as minhas ideias são indissociáveis de tudo aquilo que eu escrevo. Sou feminista e socialista, para além de bruxa e pagã e defensora do ambiente e dos direitos dos animais consequente libertação dos mesmos. Se este tipo de projeto não vos agrada ou se alguma das minhas ideias é incompatível com as vossas, decerto que encontrarão outro espaço educativo ou de opinião que seja mais do vosso agrado. Considero-me uma bruxa eclética neo-pagã, caso se questionem. Apesar de gostar muito de falar sobre mim, não pretendo entrar em grande detalhe sobre as minhas práticas pessoais.

Tenho diversos outros interesses que não vou tocar neste blogue mas talvez apreciem saber: gosto de colecionar camafeus e livros; gosto muito de anime e mangá; o meu jogo favorito de sempre é o Stardew Valley; aprecio imenso o género de horror e thriller; sou amante de música gótica, post-punk e de vários géneros do metal. O meu traço de personalidade é ter o cabelo roxo. Ninguém pediu essa informação mas fica aqui apontado de forma gratuita. 

Este blogue será influenciado pelas minhas crenças e experiências pessoais e espero que seja do agrado dos leitores (que neste momento são zero). Achei que guias imparciais para iniciantes existem por todo o lado na internet - e muitos são copy paste uns dos outros - portanto não planeio me limitar a esse tipo de conteúdo. Não pretendo substituir estudos e prática por parte dos iniciantes. Achei por bem criar alguns textos para pessoas mais avançadas, algo que não deixe de ser educativo e interessante, e focar-me em tópicos menos recorrente nas páginas sobre este tipo de conteúdo.

Gosto muito de guiar pessoas que tenham um crescente interesse no ocultismo e em espiritualidade alternativa de forma geral. Digo guiar, pois não pretendo nunca ser uma mentora de alguém. Considero essencial fazerem uma referência cruzada (isto em português soa tão mal) de tudo o que lêem. Nunca limitem a vossa fonte de informação a uma única pessoa. A comunidade aqui em Portugal é muito pequena, portanto tenho noção que este conteúdo não é de todo o mais popular. No entanto, gosto de escrever. Existem ótimos criadores de conteúdo educacional portugueses, algo que daria de facto para uma futura postagem, mas separo-me um pouco deles no sentido de que aquilo que irei escrever será sujeito à minha apreciação geral. Por outro lado, serei sempre o mais inclusiva que conseguir naquilo que escrevo, para além de tolerante. Respeitarei todas as tradições, espiritualidades, culturas e etnias que possam se enquadrar dentro desta comunidade. O que quero dizer é que surgirão muitos textos de opinião aqui no blog! E alerto que uma comunidade pequena traz imensas vantagens. E também afirmo que pessoas fora de Portugal são igualmente bem-vindas! Aceito quaisquer críticas e sugestões. Mais uma vez, espero que gostem daquilo que tenho para dizer. E perdoem a inexperiência da minha parte, este tipo de projeto é uma primeira vez para mim.

Aviso desde já que num futuro próximo irei disponibilizar serviços de leituras de tarot e runas, no entanto esse projeto está um pouco atrasado porque eu tento fazer várias coisas ao mesmo tempo e acabo por não terminar nada. Estará para breve, no entanto.

E um aviso final: eu e o novo acordo ortográfico temos uma relação estranha, logo por vezes acabo por misturar ligeiramente os dois. Peço consideração, pois todos nós temos as nossas dificuldades.

Recomendo lerem a minha página "sobre" do blogue, localizada na parte superior por baixo do título.