Este texto poderá parecer confuso, mas vou tentar me explicar. Já agora, olá a todos! Sim, andei desaparecida. Eu tenho rascunho deste texto já desde 2018 ou assim?! Porém, adiei falar sobre o assunto, pois cruzes credo alguém querer se informar acerca de magia negativa em espaços de bruxaria - somos logo afogados com "mas a lei tríplice!" e tudo mais. Bem, este texto vai tocar em diversos pontos: como conseguir aprovação de práticas de ocultismo quanto estas são demonizadas pela sociedade? a lei tríplice faz parte da Wicca? entre outros temas, como sobre o uso do termo magia negra e o porquê de considerar que é racista, mas também vou falar sobre a minha opinião num aspecto da comunidade mágica que é impingirem conceitos ocidentais em outras culturas, ou seja, segregação e imperialismo. Este vai ser um daqueles meus textos longos, sabem? Não tinha mais conteúdo para postar e decidi ir aos meus rascunhos ver os assuntos controversos que nunca postei e pronto. Sabe-se lá se alguém realmente lê isto até ao fim. Aviso desde já que este não é dos meus textos mais simpáticos e adiei publicá-lo por causa disso mesmo, pois vou mexer muito com a crença de outres, mas achei que tinha de falar sobre este assunto.
Parte 1 - Segregação em "Real Witches Don't Curse"
A frase
que está no título passa ao lado daqueles que não se interessam por “espiritualidade
alternativa” (da perspectiva de alguns). Este meu texto irá explorar, numa espécie de
desabafo, o alto moralismo das espiritualidades que entram dentro do termo “New
Age”. E chamar a
“Real Witches Don’t Curse” de arrogância e superioridade moral é a forma que
arranjei para não dizer simplesmente racismo, ignorância, gatekeeping e intolerância. Gostava de
deixar aqui bem claro: todas as religiões e espiritualidades devem ser
respeitadas; a fé não é algo que tem de ser provado aos outros, não tem de ser questionada
pelos outros, pois é algo extremamente pessoal e que ninguém tem autoridade
para a pôr em causa. Bem, para aqueles que sabem
o que é a bruxaria na actualidade e se interessam pelo assunto, é comum
encontrar expressões como “white witch” e variantes. Esta foi uma forma de as
novas espiritualidades ocidentais encontrarem alguma aceitação: praticamos
bruxaria, mas é boa, não é como a “macumba” dos outros. Afinal, o que há de
errado com astrologia e cristais? É tudo positivo! É tudo self-care! Light,
love, eat, pray, sei lá. Para além disso, muitos wiccans têm uma base de cristianismo ou pertencem a sociedades maioritariamente cristãs (aliás, uma grande maioria
são brancos, dito de outra forma) e portanto só são atraídos a uma nova espiritualidade se excluirmos as pessoas do demónio, invés de procurarem uma espiritualidade apenas deles e em que eles tomam as decisões sobre o que é moral ou o que não é. Basicamente procuram uma religião "do bem" para se sentirem bem com eles mesmos. Admito, isto é algo que eu detesto profundamente Também provém do ensinamento base de "dar a outra bochecha", nunca podemos retaliar, nunca podemos lutar, mas isso só resulta para os privilegiados, certo? Para a bruxaria não. A bruxaria sempre foi uma ferramenta de pessoas oprimidas. Deixo aqui
bem claro que eu tenho o MAIOR respeito por todas as religiões, incluindo o
cristianismo e Wicca. No entanto, é necessário analisar a demografia desta nova
religião - a nova religião é a Wicca, não a bruxaria, como devem de imaginar sei a diferença entre os termos. Isto é relevante pois há um alto moralismo misturado uma arrogância que
parte desta tremenda superioridade moral dentro de “real witches don’t curse”.
É uma espécie de “auto-masturbação” moral. Não estou a falar de opções
individuais, e não estou aqui a obrigar ninguém a tentar fazer mal aos outros
(de forma justificada ou injustificada) se na vossa experiência pessoal ou se
na vossa filosofia individual não há espaço para tal. Estou aqui a falar de
quem diz a frase que está no título que basicamente diz: esta prática milenar só é válida em 2021 se for trendy e digerível na mente das outras pessoas. Eu às vezes pergunto-me: qual é a necessidade de andarem a dizer que são do bem e do amor se nem é essa a vossa missão? Os maiores ocultistas e praticantes que conheço são muito privados acerca das suas práticas, é tudo o que digo.
Ninguém tem de
rogar pragas aos outros se não quiser, mas estamos a falar de muitas pessoas
que invalidam outras religiões - aliás, invalidam
estas religiões a partir da sua moral e das suas ideias. Não digo também que isto é sobre alguém condenar algum trabalho em específico, pois tal vai contra a sua ideia de moral - afinal todos temos direito a ter uma opinião e a expressá-la se o fizermos com o maior respeito - mas sim quem invalida religiões inteiras por estas não proibirem de forma moral certos trabalhos. Para mim, não há espaço
para “real witches don’t curse” e muito menos para a expressão “black magick”
que tem origens muito racistas e ninguém deve utilizar esse termo. Temos de pensar na representação que as
religiões e espiritualidades indígenas, tribais, nativas e/ou afro-brasileiras têm nos media que
é, basicamente, de que são todas do mal. É necessário, portanto, exigir uma
maior e melhor representatividade de espiritualidades de povos de cor.
Para quem
não sabe o que é Wicca, esta é uma religião neo-pagã (portanto, moderna, e
vamos falar disto mais tarde) maioritariamente dualista (possui um Deus e uma
Deusa), apesar de isso já não ser bem assim, pois hoje em dia há quem faça
culto a vários panteões e seja, portanto, politeísta, mas isso é uma discussão interna da comunidade, uma discussão como as mil que existem. Há que afirmar que a
bruxaria, paganismo e Wicca não são sinónimos. Bruxaria é um conjunto de
práticas encontrado em várias culturas. Paganismo é um termo para diversas
espiritualidades e religiões. Praticantes de bruxaria podem ter origem em
qualquer religião ou fundo cultural, visto que formas de magia folclórica existem em todo o lado - não quero discutir que não existem "bruxes cristãos" mas sim "magistas cristãos", isso é outra história. E nem todos os pagãos praticam bruxaria,
apesar de um grande grupo o fazer. E Wicca, religião pagã, envolve práticas de
bruxaria, daí a enorme confusão. E vamos aqui falar de bruxaria como um termo
abrangente a várias práticas que se encontram por todo o mundo e que podemos
dizer que são de certa forma parecidas a bruxaria, ou uma forma de, na sua
forma única e original. Portanto, muitos wiccans se identificam também como
bruxos. Wicca foi criada por Gerald Gardner nos anos 50 – alegadamente, pode ter origens anteriores, mas NÃO é a “religião
mais antiga do mundo” como muitos dizem. Wicca não é uma reconstrução do
paganismo antigo e não existe uma religião primordial de forma uniforme. Parece-me
que as pessoas não sabem apreender que o paganismo não era uma prática
dogmática, mas sim algo completamente regionalista, com nuances locais, e basta
estudar um pouco da antiquíssima sociedade indo-europeia e das antigas
mitologias para entender isso. E não, não vamos repetir o erro de procurar a "religião primordial indo-europeia", todos nós sabemos quem foram os bacanos que fizeram isso no passado. O paganismo era eclético, ortoprático, sem
autoridade central ou prosélito, e também altamente sacralizadora do ambiente à
sua volta. Não precisamos de procurar uma origem para tornar as coisas mais
“reais”, pois todas as religiões são reais e válidas. A “verdadeira” religião é
uma escolha individual de cada um de nós, se escolhermos praticar alguma forma
de espiritualidade.
E agora
vamos entrar num problema: Wicca apropriou bastante as religiões e espiritualidades
nativas do continente americano mas também de espiritualidades tribais e
nativas africanas. Desde que Wicca foi criada nos anos 50 (data quando esta se
torno pública) muito mudou. O que era uma antiga religião altamente
hierarquizada, organizada em Covens secretistas, bastante tradicionalista e que
requeria iniciação, começa a ser aberta ao culto individual, e tal foi
popularizado com os livros de Scott Cunningham e pelo movimento New
Age. Recomendo lerem o meu texto de introdução à bruxaria se quiserem saber mais da história da mesma.
Vamos
pegar na Three Fold Law / The Wiccan Rede que é seguida por muitos Wiccans e
não só (e é por isso que eu aprofundei um pouco o que é Wicca). Esta “lei” é parecida
ao karma de certa forma, sendo uma espécie de filosofia de vida que nos explica
que as energias que enviamos para o mundo voltam para nós três vezes (em outras versões ainda voltam mais vezes!), e que
praticar o mal podia nos sair bastante caro. Não seria uma surpresa dizer que
esta ideia é bastante moderna. Na realidade, karma não tem nada a ver com
“magia negra e branca”. O karma não é criarmos uma vida miserável para nós
mesmos por causa das nossas ações, mas sim uma ideia comum em várias religiões
(hindu, budista, etc.) muitas vezes ligado à conceção de alma destas culturas
que não a nossa, ligado também ao sistema de castas hindu, e à ideia de que há
vários “patamares” em que as pessoas reencarnam, mas também aos vários ciclos
de consciência. É uma ideia complexa, bonita e multiforme (e espero lhe estar a
fazer alguma justiça), e basicamente, nada tem a ver com a ideia de que se eu
tentar “banir” alguém da minha vida me vai cair um piano em cima quando sair de
casa. Não funciona assim. Aliás, esta ideia de "karma" que andam a espalhar na Wicca é ridícula, era fácil que houvesse retribuição divina imediata, mas infelizmente não é assim. Se existir algum peso de consciência, irão pesar tudo aquilo que fizeste na tua vida. Portanto, faz as coisas de livre consciência, não porque alguém te obriga a não fazer x. Faz as coisas de livre consciência mas com responsabilidade, mas isso é outra história. Vamos só afirmar que a ideia da lei tríplice e tudo mais NÃO PERTENCE à Wicca tradicional, sendo uma ideia posterior. Dizerem a alguém que fazer um banimento ou um return-to-sender a alguém faz com que a pessoa deixe de ser wiccana não faz sentido nenhum, a Wicca tradicional não tinha moral delimitada, apenas aquilo que herdou da thelema que era bastante vago. No entanto, muitos podem jurar que tentar fazer algo
negativo espiritualmente não lhes trouxe coisas boas, compreendo a associação e, aliás, tenho uma teoria que isso são apenas "spell backfires" mas pronto. No entanto, esta ideia dentro da Wicca tem se provado bastante moderna,
ficando, portanto, a critério individual. Wicca é
uma religião que preza o bem, e não há nada de errado com isso, mas Wicca não é
toda a bruxaria. No entanto, muitas pessoas acham que os termos são sinónimos.
Há muitas
pessoas na comunidade da bruxaria e paganismo que não respeitam a
ancestralidade das religiões nativas afro-brasileiras e americanas. Isso
espelha-se muito nas comuns apropriações culturais: termos como “spirit
animal”, “smudging”, “chakras” (apesar da questão de pontos energéticos ser
polémica, mas os 7 chakras são uma invenção dos brancos, já agora), “mojo bags”, utilização de florida water, entre outras coisas comuns
nesta comunidade que são extremamente controversas, que envolvem o crescente
uso de expressões como “religião fechada”. O druidismo é algo que está muito na
moda (chamo-lhe de Wicca 2.0 na brincadeira), mas estes apagam o culto das
cabeças e os sacrifícios que os celtas faziam e tentam tornar o antigo
paganismo celta em algo que simplesmente não era. Aliás, a interpretação do
paganismo antigo de muitos praticantes modernos tem se revelado muito fraca.
Torna-se mais fácil ler apenas Scott Cunningham e ficar-nos por aí. Por vezes ouço dizer "mas a divindade x não iria gostar que fizesses maldições" e eu apenas penso: "divindade essa que aceitava sacrifícios humanos e que não se rege por morais de humanos, muito menos a moral de um grupo restrito de humanos e de uma sociedade em específico, estás a falar dessa divindade milenar? dessa mesmo?"
Pedinchar tolerância dos cristãos e branquear o ocultismo para se tornar em algo superficial que pode ser capitalizado é a maior desilusão do movimento new age. Não é
assim que se pede tolerância. A TOLERÂNCIA EXIGE-SE pois toda a gente
tem direito que a sua religião/espiritualidade/práticas culturais seja
respeitada. Tomando o
exemplo da antiga religião egípcia, estes faziam culto ao terrível Set em
tempos de guerra ou quando fosse necessário, tal como os nórdicos antigos
faziam culto a Loki nem que fosse para manter as suas trafulhices longe deles,
ou os eslavos a Veles. Estas espiritualidades, mitologias e religiões admitiam
a existência do bom e do mal. E este existe, quer queiramos ou não admitir. No
entanto, muitos bruxos modernos juram que estas divindades não gostam de ser
“obrigadas” a participar em trabalhos negativos. Isso é apenas uma má
interpretação moderna do que é o paganismo. Todos
estes termos podem ser complicados para quem é novo neste mundo: mas afinal a
espiritualidade asiática pode ser considerada paganismo? Ou paganismo é apenas
uma construção ocidental? Mas Voodoo/Hoodoo/Vodon é bruxaria "negra"? Qualquer pessoa pode
praticar estas religiões? O que são religiões fechadas? Mas a magia e a bruxaria
interferem no livre-arbítrio dos outos?
Parte
II – Popularidade (seletiva)
Com a
crescente popularidade de bruxaria, neopaganismo e espiritualidade alternativa,
de facto tenho de apontar que a causa desta é maioritariamente pela estética e
uma espécie de fuga às religiões tradicionais (e até ligada a uma crescente
preocupação com o meio-ambiente) do que um real interesse por mitologia,
religião, espiritualidade, ocultismo e teologia. Não digo que tudo isto seja negativo por
si, mas traz coisas negativas como a ignorância - falei sobre isto no meu post de "Magia e Feitiços, os detalhes" e também em "10 coisas que gostava de ter sabido antes de seguir o paganismo", um título terrível para um post mas não sabia como traduzir melhor. Não digo
que toda a gente que se interesse pelo assunto tem de começar a ler todos os
livros que encontrar acerca disto, e nem digo que a estética é errada por si
mesma, mas digo que há uma tremenda ignorância nesta comunidade, pois as
pessoas interessam-se por estes assuntos não pelos melhores motivos. E essa
ignorância tem provocando bastante segregação de comunidades inteiras, cujas
vozes não são ouvidas. Já fiz uma caracterização de uma parte das pessoas que considero que apenas leem "pop spirituality" na minha publicação sobre o problema da transfobia na bruxaria. Agora estou a fazer outro desabafo sobre racismo, mas considero que é importante referir isto.
Não há
nada de errado com a bruxaria se tornar mainstream, mas esta tem se centrado
nos interesses dos brancos e numa tentativa de adaptação das sociedades
maioritariamente cristãs que procuram uma nova forma de viver em harmonia com
os outros e com o ambiente, como já referi, e nem tudo nisto é errado, mas há
muita estética envolvida nisto, em que as pessoas se preocupam mais em comprar
cristais, panos hippie/boohoo para pôr nas paredes do quarto e camisolas que
dizem “Witch Bitch” do que realmente investigar a história da bruxaria e das
suas diferentes formas que podem ser encontradas à volta do globo hoje em dia,
e o problema disso é que leva a muita ignorância, como já referi e já me cansei
de repetir. E repito a mesma ideia, nem toda a gente tem de
ser a maior especialista em alta magia e teoria mágica. Acreditem, eu estou
muito grata pela crescente popularização da bruxaria, pois assim é mais fácil
encontrar coisas que eu gosto e a informação está muito mais acessível...mas nos livrinhos bonitos do instagram apenas consta copy-paste das coisas básicas de bruxaria, como fazer um altar e "como decidir o tipo de bruxe que és!" e tudo mais da "pop-spirituality", raramente encontramos livros novos que falem sobre magia negativa. E eu digo: isto é hipocrisia, pois na vida real se alguém nos magoar fisicamente também temos o direito de nos defendermos da melhor forma. O mesmo se aplica à magia. E quer queiram quer não, magia de intenção negativa é tão antiga como a magia em si. Não podemos excluir esta parte do ocultismo, pois a ignorância vai nos sair caro. Temos de saber como funciona um feitiço de magia negativa para o podermos combater melhor. Além disso, quando levarem com uma maldição a sério vão entender que limpezas e curas todas positivas podem não resolver, é preciso mandar de volta e amarrar a magia dessa pessoa. Na vida não é tudo paz e amor. Mas claro que há o grupo de eleitos que diz: "mas o livre arbitrio da pessoa! não podes fazer arramação!" Ah, a pessoa tem direito pelo seu livre arbítrio de me causar danos? E fazer uma proteção e barreiras energéticas (sempre com luz e amor) não é ir contra a vontade da pessoa? Não é interferir com a liberdade dela?
Parte
III – Sobre bruxaria negra (black magick vs. white magick) e a moralidade de
curses, jinxes, hexes.
Um dos
assuntos mais discutidos na comunidade de bruxos e pagãos trata-se da
moralidade de trabalhos negativos que possam interferir com o livre-arbítrio de
alguém, como feitiços amorosos, amarrações, maldições e pragas. A estes
trabalhos costumam dar o título de “magia negra”. Aliás, esse título costuma
ser utilizado para descrever 3 coisas diferentes: em primeiro lugar, é
utilizado para descrever magia tradicional africana, como Voodoo e Hoodoo, em
que toda a sua profundidade espiritual e relevância cultural são reduzidas a
simplesmente “magia negra” ou “macumba”; em segundo lugar, magia negra descreve
todos os trabalhos considerados negativos, como disse anteriormente; em
terceiro lugar, magia negra pode se referir a trabalhos ligados a Satanás,
Lúcifer, demónios, etc. Eu diria para utilizarmos termos alternativos e mais directos, como trabalho negativo ou bruxaria satânica/demónica, em vez do termo "magia negra" que é pouco objetivo, pois nunca sei do que a pessoa está a falar, mas suponho que se alguém se identifica com "black magic" será uma criança de 12 anos, pois há termos mais específicos de tradições específicas - algo que "black magic" não é - como left hand path e tudo mais.
É sugerido
inúmeras vezes para lançarmos um feitiço para atrair um par perfeito, em vez de
tentarmos que alguém nos ame utilizando magia simpática como amarrações. Vou
aprofundar isso mais à frente no texto. Tudo isto são sugestões bastante
sensatas, no entanto o que é que acontece quando alguém não as segue? O que é
que acontece quando alguém não segue a “Wiccan Rede”? O que acontece quando o fundo cultural dessa
pessoa não é o mesmo que o nosso, por consequência tendo uma diferente ideia de
moral? O que acontece quando alguém tem interesse em “magia negra”? Será que
devemos tentar amaldiçoar alguém nas nossas práticas pessoais? E se eu encontrar uma pessoa com uma prática muito rica e com quem posso aprender, no entanto a pessoa também pratica feitiços amorosos como amarrações, a pessoa perde o direito de ser chamada de bruxe porque ela não segue a mesma moral que eu? Os termos
no título (cursing, jinxing, crossing, hexing) têm todos significados
diferentes, mas não vou aprofundar isso agora, todos significam essencialmente
fazer trabalhos negativos em alguém ou para uma situação especifica. Estes
trabalhos podem ser feitos para separar um casal, atrair um certo parceiro,
etc. E como disse, todos estes trabalhos recebem o título de “magia negra” ou já receberam da boca de alguém esse título. Portanto, encontramos uma dicotomia entre magia branca vs. magia negra na
comunidade de bruxaria. E este assunto divide imenso a comunidade, quando não
deveria, pois cada um tem direito a seguir as suas práticas pessoais, certo?
São escolhas individuais de cada um, certo? Bem, nem toda a gente pensa desta
forma como já afirmei.
Aprofundado sobre a moralidade destes trabalhos, muitas
maldições têm a intenção de enviar de volta as energias negativas que nos
enviaram. Será isto assim tão errado? A maioria das pessoas que escolhe fazer
estas práticas negativas fá-lo por retaliação e autodefesa. No entanto, esta
não é a única forma de alguém se defender de ataques mágicos, mas quem escolhe
fazê-lo está no seu direito. Muitas vezes as pessoas até enviam estas energias
de volta de forma amplificada. Vejo
a necessidade de mencionar que termo amarração (binding) não se limita
exclusivamente a trabalhos negativos - alguém pode “amarrar” um certo
comportamento ou hábito de alguém para o nosso bem ou para um melhor bem-estar
da pessoa, ou também amarrar energias negativas que lhes foram enviadas. Não digo que não concordo que estar com alguém de forma amorosa que apenas "amarrámos" não é propriamente amor real, portanto eu não estou a dizer que as críticas em alguns trabalhos não são sensatas e válidas, obviamente. Eu sei que existem coisas que são obviamente pouco éticas, no entanto acho extremista dizer que "maldições sob qualquer circunstância não são éticas, se o fizeres estás excluíde da comunidade, és um lixo da sociedade".
Alguém pode escolher não se vingar por magia, mas talvez na
sua vida pessoal procurem justiça de outra forma (ou não acreditam sequer nessa
ideia). Vamos tomar o exemplo de alguém que jura ser uma bruxa branca e que
todos os seus feitiços são para proteção ou para curar-se a si mesma e aos
outros, isso faz com que ela seja automaticamente uma boa pessoa, certo? Obviamente
que não! As suas ações podem contrariar muito a sua espiritualidade, e por isso
é que muitas vezes essas pessoas utilizam a religião para se redimirem, e isso
é bastante hipócrita - de que vale não cumprirem aquilo que dizem ser? Não é
nossa obrigação nos melhorarmos enquanto pessoas? Também há quem diga que quando uma pessoa faz um trabalho
negativo e sofre consequências, no entanto é relevante afirmar que isto não poderá
não ser karma ou a Wiccan Rede a se revelar, mas sim que essa pessoa tinha
muitas proteções, escudos ou ancestrais a protegê-la. Isto chama-se um
“backfire” e até pode acontecer com feitiços positivos. Estas conclusões são
pessoais e cabe a cada um tirá-las a partir da sua experiência pessoal, pois
cada um acredita naquilo que quiser. A minha recomendação é sempre se protegerem,
terem atenção de praticarem tudo da forma mais correta possível e pensarem bem
acerca das consequências de todos os nossos actos. Eu falei deste perigo no meu texto da magia mais segura, recomendo lerem!
III.I A magia é neutra
Vou afirmar
que não existem dois tipos de energia, a tal branca vs. negra. Aliás, existem diversos tipos de magia bem delimitados, até é mais óbvio mencionar a intenção do trabalho ("magia negativa" por exemplo), mas de facto não existe algo como "magia branca" ou "magia negra". Isto parece uma
grande afirmação mas vou explicar o meu ponto de vista. A energia em si é
neutra, logo não tem cor nem intenção, esta é posta por nós. A energia apenas
existe, apenas é, e não pensa por si própria. Talvez algumas pessoas achem isto
óbvio, mas há quem acredite que a magia realmente se divide entre estas duas
formas e gabam-se de utilizarem apenas a boa energia/magia, portanto elas devem
ser boas pessoas. No entanto, a magia é energia, e nós utilizamos a magia de forma
como nós quisermos.
Estas
classificações de magia branca e negra são muito ambíguas. Depois recebe-se questões
de “como fazer um feitiço para afastar alguém que utilize apenas magia branca”…mas
o quê? A definição é que magia branca só tem intenções positivas. E estes
títulos estão tão difundidos que estão na capa dos livros mais famosos de
bruxaria, no entanto estes termos acabam por ser utilizados quase de forma
aleatória, sem ninguém reconhecer que são termos difíceis de definir, pois a
moralidade está dependente de cada um. A vida em si não consegue ser totalmente
boa ou má, como nenhuma pessoa consegue ser totalmente boa. E recusar aceitar
isso parece-me um pouco ingénuo. Nada consegue ser totalmente bom. No entanto,
como digo, nada de errado em tentar alcançar a vida que cada um pretende. No
entanto, reduzir as pessoas que fazem certos feitiços a “más pessoas” não
parece correto nem sequer sensato, pois no fundo estamos a dizer que somos
melhores pessoas do que elas. Muitas vezes, questiono-me acerca das intenções
das pessoas quando estas se gabam que apenas fazem bruxaria branca. Ter o
objetivo de apenas fazer trabalhos positivos para melhorar a sua vida parece-me
ótimo, e procurar enaltecimento espiritual e tudo mais é uma escolha individual
e linda, mas muitas vezes parece que querem o troféu de bruxe do ano, quando
religião e espiritualidade é algo tão pessoal para cada um e não deveria ter
estas intenções de enaltecimento pessoal por de trás. As nossas escolhas deviam
ficar privada, em vez de nos compararmos aos outros.
Para terminar: todos os
trabalhos mágicos são uma mistura de magia branca e negra. Vou dar alguns
exemplos. Sobre um
simples trabalho para arranjarmos um emprego – atrair um, termos mais sorte
para arranjar um, etc. Não estaremos nós a manipular a pessoa que nos
entrevistou para esse emprego ou na próxima entrevista de emprego? E se há quem acredite que apenas estamos a
manipular energia que já existe, não poderemos estar a tirar a oportunidade a
alguém que se calhar precisa mais do que nós? As pessoas têm 100% de certeza que "apenas atraímos algo que já nos pertence, apenas atrais o emprego ideal, não manipulas ninguém"? E sobre feitiços de amor, há que
admitir que nem todos envolvem violar completamente o livre-arbítrio de alguém,
e nem todos são trabalhos de dominação como amarrações. O termo feitiço de amor
é muito vasto. E quanto a feitiços para aumentar a nossa confiança e
amor-próprio? Isto não são feitiços de amor? Também serão errados, portanto? Detesto quem diz "feitiços de amor são todos maus e é magia negra e não deves de fazer!!!", mas e se eu tiver o consentimento da pessoa e for um trabalho para apimentar uma relação? Eu detesto mesmo generalizações básicas de bruxaria de instagram. E
sobre aqueles feitiços que as pessoas consideram mais aceitáveis moralmente que
são apenas para atrair um parceiro ideal, então como é que não há alguma
manipulação envolvida? Haverá menos manipulação, portanto? Eu diria
que a concordância geral é que um simples feitiço de amor ou de boa sorte não
consegue criar algo que já não exista, mesmo que este seja direcionado a alguém
em específico. Isso seria, portanto, um trabalho de dominação amorosa. Isto é
entendido por alguns, e este tipo de trabalhos são complicados e difíceis de
manter para conseguir criar sentimentos ou atração onde estes não existem de
todo. Dominação envolve forçar uma forma de pensar na outra pessoa. Os feitiços
de amor, na maioria das vezes trata-se de amplificar estes sentimentos. No caso
de empregos, aumenta as nossas chances para conseguir o mesmo.
O que eu
quero afirmar que, dependendo da nossa interpretação pessoal, pouca a magia se
pode considerar simplesmente e puramente branca ou positiva. No entanto, claro
que existem trabalhos mais positivos do que outros. Mas por vezes as pessoas
tentam apenas praticar magia branca, mas nem sempre pensam o suficiente acerca
dos seus feitiços para entender que pouca magia pode ser 100% positiva.
Trata-se de ver as coisas de várias perspetivas. Um trabalho para afastar
alguém negativo e bani-la da nossa vida pode ser algo que não traz nada de
negativo à pessoa, mas de certa forma está a manipulá-la e a afastá-la de nós,
mas isto não será justificável caso essa pessoa nos faça mal? Não temos direito
a querê-la longe de nós e forçá-la a deixar-nos em paz? Será realmente imoral?
Não é imoral pois não é uma maldição, no entanto é imoral quando a maioria da
magia moderna nos fala do livre-arbítrio das outras pessoas. Talvez algumas
pessoas prefiram fazer um trabalho de proteção e apenas rodear-se de energias
positivas (têm direito a fazer esta escolha pessoal), mas o que eu quero
afirmar é que muitas vezes as pessoas falham miseravelmente ao tentarem ser
apenas positivas, pois não pensam aprofundadamente acerca das várias etapas que
envolvem um feitiço. Essas pessoas podem não fazer amarrações ou maldições, no
entanto não pensam acerca da moralidade dos seus feitiços. É mais fácil comprar
um livro que venha com uma listinha de feitiços “bons” para nós fazermos. Estas “caixas” apenas
limitam as pessoas. Há muitas questões que se levantam acerca destas
classificações de feitiços que são supostamente puramente positivos. No
entanto, as pessoas nesta comunidade são constantemente questionadas com “que
tipo de magia praticas?” e garanto-vos que essas pessoas nem sempre procuram
uma resposta como “inspiro-me em magia celta” mas querem na realidade saber se
praticas magia branca ou negra. E se disseres que praticas a última (ou algum
“sinónimo” ou seja alguma prática de origem em culturas de cor) deixas de ser válida como praticante. Por
consequência, muitos praticantes têm usado o termo de “magia cinzenta”, termo que eu pessoalmente não sou fã, mas pronto.
Eu
acredito que ninguém consegue ser um praticante de magia puramente branca. Nada
é totalmente bom. Toda a gente tem pensamentos negativos, pois ninguém é
totalmente positivo. Nem sempre as pessoas pensam totalmente nos seus feitiços
e apenas os fazem, mas talvez se pensassem mais sobre eles apercebiam-se que
existem quase sempre aspectos negativos em quase tudo aquilo que nós fazemos.
Todas as nossas acções originam uma série de consequências sem nós notarmos.
Toda a gente tem direito a ter um código moral e ético pessoal, quaisquer que
ele seja. O compasso moral das pessoas também muda ao longo da vida. Muitos
praticantes de magia fazem aquilo que é preciso naquele momento, aquilo que é
considerado justificável para eles. Muitos praticantes pedem auxílio aos
deuses, ancestrais, anjos e tudo mais em vários momentos das suas vidas. E isso
cria muitas discussões que por vezes se tornam ofensivas e agressivas pois as
pessoas simplesmente não concordam com as escolhas pessoais dos outros. Mas há
que reconhecer que nem toda a gente provém da mesma cultura que nós. E muitos
principiantes sentem-se confusos com todos estes termos. O meu
conselho é: deixem a vossa magia evoluir com a vossa pessoa. A mudança é uma
constante. Polarizar a magia apenas divide as pessoas entre boas e más. Existirão
realmente pessoas totalmente más, cuja sua função na sociedade se resume a
somente mandar mau olhado (que já agora, todos nós o podemos fazer, mesmo sem
nos apercebermos) e praticar amarrações?
Basta
entrar em qualquer fórum que encontramos tópicos como: “Uma bruxa fez uma
amarração ao meu marido! Aquela p*ta!”. De facto, toda a bruxaria é de facto tida como
negativa, portanto as pessoas forçam imenso esta onda de good vibes para serem
mais aceites na sociedade. Esta questão das maldições e pragas (curses, jinxes,
hexes) divide bastante a comunidade mas há uma resposta simples para tudo isso:
cada um faz o que quiser e todas as práticas não válidas. “Harm none” não serve
para todos, nem pertence a todas as culturas. Se vamos roubar os aspetos giros
das outras culturas, ao menos devemos-lhes algum respeito. Um exemplo disto é
que a magia de velas mais popular, utilizando velões, velas com formas
específicas (como a vela dos amantes) e correspondências com cores (vermelho
para amor, por exemplo), untar com óleos, entre outros, tudo isso tem origem na
magia africana, pois a magia de velas realmente europeia é totalmente
diferente. Há uma grande hipocrisia na comunidade mágica moderna: roubam
aspetos de outras culturas, no entanto não estão realmente preparados para
aceitá-las.
E aí é que
entramos no racismo que existe na expressão de “white and black magick”. A
linha que separa estas supostas duas formas de magia é bastante ténue e a
origem deste termo é acusado de ser racista. Um artigo que estará no fim do
texto explica isto muito bem:
“A
simple explanation for this saying is that witchcraft has no color. Not white.
Not black. Not grey. Or maybe a million shades of grey. What is baneful and
what is a blessing? Is it baneful to remove a toxic person from your life? For
them, it can be considered as such since your witchery may interfere with their
free will. They may want to stay in your life. We can package this as
“protection” magick, when it’s actually baneful. The appeal of protection
witchery is that it appears to be “white” witchcraft. After all, you’re only
saving yourself, right? However, we’re usually putting up barriers against
someone or something, which interferes with their free will. Maybe you don’t
need to protect yourself if the problem is one person. Why not wrap them in
witchery, binding them from interfering with you ever again? Constantly having
to protect ourselves is incredibly draining. Use your shield as you must, but
deal with the problem in specific ways. Hexing and healing only work well if
they are specific.”.
Finalizo aqui este meu artigo de opinião e espero que tenha
sido acessível a todos. No fundo eu só queria dizer: odeio pessoas gratiluz chatas da luz e amor e que é tudo proibido porque a wicca diz que sim. Eu penso sempre no desespero que as pessoas devem de passar para recorreram a medidas drásticas como amarrações, por vezes o abandono do parceiro pode significar uma pessoa ficar sozinha e na pobreza. Pensem bem nas vossas ações invés de julgarem as outras pessoas pois vocês não sabem o que as pessoas passam. Quero só tornar claro mais uma vez que as pessoas têm
direito a seguir a religião que quiser e merecem que esses dogmas sejam
respeitados, pois religião é espiritualidade organizada. Portanto, quem só quer
praticar “o bem” está à vontade para o fazer! Mas não sejamos intolerantes,
respeitem a ancestralidade das outras religiões. Infelizmente, em todas as
comunidades religiosas existem sempre pessoas que tentam forçar as suas crenças
nos outros. Considero que é obrigação de todas estas comunidades de defenderem
os direitos de comunidades que têm práticas similares às nossas.
Há que relembrar que práticas que envolvem algum tipo de
magia ou bruxaria são encontradas em todo o mundo há milhares de anos e,
portanto, estas práticas envolvem diferentes culturas e tradições. Portanto,
temos de deixar de assumir que todos aqueles interessados em bruxaria se tornam
automaticamente seguidores da Wicca. No entanto existem muitos wiccans que
acreditam que se alguém lhes fizer mal, então está mais do que justificado se
defenderem (“do no harm but take no shit” é uma frase que está cada vez mais
popular). Cabe a cada um analisar o seu sistema religioso, a sua
espiritualidade e o seu compasso moral e tomar estas decisões sozinho. Não cabe
a ninguém dizer aos outros o que fazer. Se tu estiveres interessado em
descobrir sobre as diferentes técnicas de maldições e alguém começar a dizer
para nem sequer pensares sobre isso quando essa pessoa não sabe nada acerca das
tuas crenças ou cultura, apenas ignora. Se o teu caminho religioso que tem
morais especificas, verifica se a tua própria tradição permite ou não o
trabalho que tu pretendes fazer.
Artigo interessante:
·
https://www.patheos.com/blogs/keepingherkeys/2019/01/the-truth-of-a-witch-that-cant-hex-cant-heal/
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