Foram várias as vezes que fui confrontada com perguntas de iniciantes que se assemelham a "quero aprender sobre o oculto/bruxaria/misticismo, o que recomendarias ler?", ao passo que eu respondo de seguida com outra pergunta sobre qual é a tradição que pretendem seguir, qual a corrente ou assunto que lhes interessa. Eu tento realizar um diagnóstico do que poderá agradar àquela pessoa em questão e por vezes uso o termo alta e baixa magia, e daí se segue a questão que muitas pessoas têm de o que são sequer estes termos, o que significam e quais são as diferenças. Isto entra mais na questão da terminologia no contexto de teoria mágica, mas considero um tópico interessante para as pessoas poderem se focar em algo primeiramente, sabendo que têm muitas opções de estudo no futuro. Há um problema de que algumas pessoas pretendem é aquela uma única fonte ou aquele livro fantástico que torne alguém num especialista neste assunto tão vasto com um estalar de dedos, o problema é que tal não existe. Não há sequer um caminho único, pois tudo se resume à esfera individual. O termo alta e baixa magia aparece muito nos livros, logo achei que era um bom texto inicial para o meu blog, pois acho bastante relevante apontar que nem toda a magia é bruxaria. Existem pessoas que escolhem o rótulo de magistas. O assunto é meio complexo, mas espero conseguir fazer uma boa exposição do mesmo.
A primeira coisa que queria afirmar é que não há nenhuma distinção moral entre ambas. Para além disso, não faço julgamentos éticos neste blog, pois não acredito em tal. Falarei disto mais adiante. A diferença entre alta e baixa magia pode ser tão simples ou tão complexa como a pessoa que formula a resposta bem lhe apetecer. É tão simples como isso, ironicamente. Eu diria que estamos a falar de uma diferença técnica e ritualística. A linha pode ser tão ténue que muitos praticantes utilizam ambos sistemas, ou até diferentes culturas têm aspetos tradicionais que encaixaram em ambos os sistemas. Algumas tradições mágicas modernas como o Kardecismo e a Wicca parecem um pouco a mistura destes sistemas, sendo que esta última na realidade descende de alta magia cerimonial europeia, organizada em covens hierárquicos. Ainda é possível notar como a Wicca descende (e faz parte, dependendo da tradição) de um sistema de bruxaria tradicional com a sua ritualística complexa, bem organizada e ainda bastante impecável mesmo com o passar do tempo. No entanto, nem todos concordam com esta minha opinião (como em tudo!) pois consideram Wicca baixa magia. Também é notável que muita da alta magia faz o que é chamado de trabalho energético, tal inclui termos como grounding, visualization, centering, fazer círculos mágicos, invocar entidades e divindades, entre outros.
Na realidade, nem todas as pessoas são adeptas desta distinção. Algumas pessoas consideram que estes termos podem ser instrumentalizados para atacar outras tradições, especialmente aquelas que são tradicionais como rootwork, conjure, cunningfolk, entre outros, que são típicos de baixa magia, e portanto nem todos os praticantes são fãs destes conceitos. Existem vários termos dentro da comunidade mágica que têm perdido o seu uso, muitas vezes por serem ofensivos (um exemplo disso seria o uso da expressão "magia negra", tal que dava para eu escrever um tópico só sobre isso pois é um termo bastante ofensivo). Esta minha publicação não é para defender o uso deste termo, pois considero que as críticas ao mesmo são bastante ilusórias de como nem sempre a comunidade respeita os diversos caminhos dos praticantes. Muitos mágicos/magistas afastam-se de trabalhos de baixa magia, pois não consideram dignos. É daí que pode entrar a confusão do porquê dos praticantes escolherem se rotularem e utilizarem diferentes títulos nesse sentido. Isso tem muito a ver com o trabalho e as tradições de cada um! São escolhas individuais. Algumas pessoas indicam que magia europeia é considerada alta magia, enquanto as tradições populares como umbanda não. Não considero que exista magia menor ou maior, portanto não uso esses termos, no entanto esses conceitos existem e são usados por algumas pessoas. Pela internet existem várias "definições" parvas como: alta magia vem de Deus e a baixa magia do Diabo; uma é dos seres de luz e outra dos seres infernais; uma é magia branca, e a outra não. Sem me querer repetir muito, eu discordo com estes julgamentos morais.
A alta magia ("magick" em inglês) pode ser considerada uma alquimia do espírito e da mente, sendo que os seus rituais são altamente complexos, ritualísticos e religiosos, e muitas vezes destinam-se a trabalhar internamente, com o nosso Higher Self, com o plano astral, mas também ritos que envolvem evocar ou invocar entidades, demónios, anjos, daemons, entre outros. A alta magia é chamada de devota. Muitas vezes estes rituais são realizados em grupos organizados, sendo algo que foi praticado em grandes ordens esotéricas e ocultistas. Outras vezes, os magos são solitários. A alta magia tanto inclui sistemas de pensamento completos como gnosticismo ou, por outro lado, tradições cerimoniais. Todos estes termos são bastante abrangentes e a linha que os separa é muito ténue. Não é apenas a cerimónia que difere estes sistemas mágicos, pois aí eu iria ter dificuldades de encaixar Voodoo: é um sistema complexo e iniciático que envolve bastante ritualística mas muitas pessoas consideram baixa magia; será pela confusão com Hoodoo, ou seja, ignorância? Ou serão estes termos apenas direccionados a magia europeia? Muitas pessoa também desgostam destes termos pois consideram que há um cruzamento histórico destes conceitos, e também que se torna difícil categorizar certas tradições, como o xamanismo, considerado um dos pilares da bruxaria. Eu recomendo não utilizar estes conceitos como rótulos limitadores, apenas como guias para nos fazermos entender mais facilmente enquanto comunidade.
A alta magia bebe muito de misticismo típico europeu como esoterismo maçónico, misticismo judaico-cristão, rosa-cruzianismos, entre outros. Muitas vezes, estes praticantes têm por hábito ler sobre as antigas religiões de mistério, tanto gregas como até paleolíticas, e muitos mágicos/magistas têm muito prazer em apreciar as correntes nascidas no antigo Egipto como a sua antiga religião. Ou até mesmo correntes como o neo-platonismo ou gnosticismo. Alta magia muitas vezes é chamada de magia de ascenção, pois pretende um melhoramento da própria pessoa. Muitas vezes envolvem rituais de descender ou ascender, provocações de situações de quase-morte, journeying e trance. Algumas pessoas indicam que a alta magia é um esforço de controlo da realidade, muitas vezes através da invocação/evocação de entidades. A alta magia pode ser intercalada com o cristianismo ou não. Não existe regra. O gnosticismo tem sido uma corrente muito popular na alta magia (e os consequentes aeons - termo utilizado também em thelema).
Alta magia ou magia cerimonial engloba diversos tópicos: Crowley, Caibalion, Hermetismo, Solomon, Goetia, magia enochiana, Necronomicon, Blavatsky, Eliphas Levi, Book of Cerimonial Magic, Julius Evola, Os Três Livros de Filosofia Oculta, Dion Fortune, teurgia, taumatorgia, Caballah, necromancia, daemon, thelema, kardecismo, alquimia entre muitos outros termos que podia lançar aqui para o meio. No entanto, nem todos concordam que estes termos se encaixam na alta magia.
Outros títulos famosos de autores que não mencionei: Initiation into Hermetics e Practice of Magical Evocation, Franz Bardon; Godwin’s Cabalistic Encyclopedia, Godwin; The Magician’s Companion, Whitcomb; Agrippa’s Three Books of Occult Philosophy; Agrippa’s Fourth Book of Occult Philosophy; Grey’s Qabbalistic Concepts: Living the Tree
Existem alguns livros com a intenção de serem uma introdução a um tópico tão vasto como The Black Arts: A Concise History of Witchcraft, Demonology, Astrology, and Other Mystical Practices Throughout the Ages e o The Secret Teachings of All Ages. Muitos destes livros falam das diversas correntes ao longo da história, desde os rituais iniciáticos das religiões de mistério até à formação de famosas ordens ocultistas ao longo da história, portanto tentam interligar a história mundial com a evolução do esoterismo. Isto lembra-me de títulos como a História Secreta do Mundo e a História Mística do Mundo, ambos do mesmo autor, e o Black Sun ou Itália Esotérica. Também têm surgido títulos que vão de encontro com este mesmo esforço, mas neste caso com a história de Portugal.Portanto, as diferenças são de método, e não de resultado. É mais acerca do grau de ritualística e de cerimónia. A magia é sobre manipulação de realidade (a próxima publicação será um texto sobre iniciação à bruxaria onde falarei sobre isso!). Alguns falam que alta magia faz a magia direta, em teoria. Ou seja, a baixa magia utiliza intermediários. Não sei se confio muito nesta definição, mas isto é o que muitos acreditam, pois consideram que tem a ver com a solicitação vs. manipulação ou dominação. A alta magia tenta se liberar do ego e não costuma utilizar a magia para simplesmente resolver os seus problemas (a não ser que queiras obrigar um demónio a fazer aquilo que tu queres, não é Goetia? - piada).
Baixa magia muitas vezes está ligada a mudanças mais focadas para o mundo externo, com uma direção mais prática e direta. É algo mais palpável, folclórico, individual, envolve mezinhas, magia simpática e correspondências, e é também mais ligada à terra, sendo mais natural. Portanto, a baixa magia envolve astrologia, herbalismo, bruxaria natural e elemental, divinação, entre outros. Há alguns conceitos de teoria mágica como o "similar atrai similar" e o básico de manifestação que também estão envolvidos. Apesar de alguns considerarem que a baixa magia tem um cunho pagão, eu diria que tem mais uma inclinação popular. O cristianismo não apagou por completo o paganismo, daí surgirem títulos como Livro das Pragas, Agouros, Rezas, Superstições e Outros Esconjuros. Estas crenças populares têm sido mais valorizadas. Alguns teóricos afirmam que a baixa magia retira a sua energia da terra. Muita da bruxaria moderna retira as suas bases desta baixa magia, sendo que a popularidade da mesma tem crescido imenso. No entanto, sinto que há imensas categorias de magia que não encaixam em nenhum destes rótulos. Isto quer dizer que alta magia apenas trabalha com entidades - não faz culto - e que procura melhoramento próprio ou ascese enquanto baixa magia procura apenas coisas pragmáticas e tangíveis? Existem nuances, mas talvez essa seja uma divisão mais fiel, faltando mencionar que diferem um pouco em técnicas. No entanto, não há nada que aponte de que não existissem nuances, mas sim que a baixa magia - bruxaria tradicional, magia folclórica - era praticada por pessoas comuns para fins comuns, lidar com problemas como uma pessoa desaparecida, espíritos da natureza e o sobrenatural, coisas deste género.
Lembrar de que não existe exclusão mútua. Um mago, praticante, bruxo conhece todas as ferramentas que tem à sua disponibilidade e vai utilizá-las para cada contexto específico, conforme os seus objectivos e necessidades. Não é preciso escolher um caminho único. No entanto, cada pessoa terá as suas preferências, a sua tradição, fé e fundo cultural, mas muitos praticantes fazem uso de ambas as magias de alguma forma. Para além disso, o estudo do oculto começa sempre por algum lado. Espero que este texto tenha clarificado algumas dúvidas.
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