quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Familiars e a confusão sobre eles

Este texto não vai aprofundar os familiares na idade média/moderna europeia, mas sim clarificar a confusão acerca dos mesmos na comunidade! Vou deixar fontes sobre este assunto, pois infelizmente poucas pessoas acreditam em mim quando digo isto...primeiramente, começo o texto para dizer: o vosso animal de estimação não é um familiar. Até a Wikipédia é capaz de fazer a distinção: a espiritualidade new age, neopagã, wiccana, entre outras, utilizou o conceito de familiars para significar algo totalmente diferente. 

Os familiars são entidades descritas há bastante tempo como ferramentas de um praticante, não um animal de estimação que vocês amam e consideram parte da família! Aliás, a Wikipédia tem bastante informação acerca de como funcionava os familiares na idade moderna europeia. A ideia de familiar era muito vaga, eles mudavam de forma e até podiam ter forma humana! É só preciso fazer uma pesquisa mínima. O vosso gato faz isso? Não! Um familiar é um espírito, uma entidade. Aliás, a associação destas entidades a praticantes tem origem pelo menos na idade média. Resumidamente, um familiar é uma entidade que faz um pacto com um praticante e que o auxilia na magia. Eu duvido que muitos praticantes tenham interesse em pactos com espíritos nos dias de hoje, mas para quem tiver: consegue-se encontrar muita informação sobre isso online! 

Já vi praticantes a obrigar animais de estimação a fazer "treino" no plano astral. Vocês não querem que o vosso gato seja o vosso familiar, pois quando isso acontecer será o primeiro a levar os golpes psíquicos. Basicamente podem ser usados como escudos, eles fazem aquilo que o praticante manda. Não existe livre arbítrio. São ferramentas. O que pode acontecer é o vosso animal falecer e em espírito quiser vos auxiliar na magia e voltar. Isso é diferente do vosso gato olhar para o altar. Todos os animais são curiosos. Mas não tenham muita esperança disso, a maior parte dos espíritos animais segue em frente com muita facilidade. Não há nada que os prenda cá. No entanto, já li descrições de um espírito de um animal de estimação voltar e se voluntariar para ter este pacto, ou pelo menos voltar e ficar por uns tempos a tomar conta do dono. Pode acontecer, mas hoje em dia na comunidade é mal visto tentar "forçar" estas entidades a alguma coisa. Na bruxaria de antigamente não havia ideias demarcadas sobre sermos bonzinhos para os espíritos, então elas entidades eram um pau-mandado, basicamente.

Na tradição, supostamente era o "diabo" que dava os familiares aos praticantes e eram vistos como entidades que os praticantes mandavam fazer o que eles queriam. Houve a associação com rãs, cães,  lebres e os famosos gatos pretos! Sei que também há alguma associação no folclore com fae e outros espíritos da natureza, mas há menos fontes sobre o assunto. Sei que os livros da Morgan Daimler mencionam fae familiares! Muitos textos vão dizer que familiars eram guias enviados para ajudar os praticantes, mas as descrições que temos é que não era algo assim tão bonito. Eles eram usados pelos praticantes. Já ouvi descrições de que realmente existem animais de estimação que agem como protetores, mas isso surge da sua vontade, e não por forçarem, e não são familiares por causa disso, ou pelo menos não encaixam na descrição. Isto e consequências do que séries como Sabrina trouxeram à ideia popular de uma bruxa com um gato preto, bebendo do antigo folclore, mas os praticantes modernos levaram séries de fantasia muito a sério. O medo de familiares era tão grande que chegaram a matar imensos gatos pretos, o que levou a uma peste de ratos, e depois veio a peste negra e sabem o resto da história... 

O termo familiar não se pode aplicar a um gato que vocês encontraram na rua e gostam muito. É algo mais complexo do que isso! É suposto vos ajudar no plano astral e eram associados tanto a demónios como a fadas, mas era sempre algum espírito, não um bicho que existe fisicamente. Estes espíritos adotavam a forma de animais, o que é diferente. Todas as fontes que deixei abaixo também sugerem que nenhuma pessoa quer que o animal de estimação seja um familiar, pois isso é um escudo. Por favor, deixem de achar que os animais que existem neste mundo estão aqui para nos servir. Nem todos os bichos são sinais dos deuses ou um objecto que vocês podem usar. Familiares são parte de magia complexa! E antiga! E que de certo o vosso gato preto chamado Salem não é o vosso familiar...pois não tem o contrato com vocês, não é um demónio que incorpora um gato, nem vos ajuda no plano astral, nada disso...

Para além de Sabrina, há mais algum culpado nisto tudo? Sim! Na comunidade new age existiu uma grande apropriação de cultura nativa americana. Muitos praticantes começaram a procurar os seus "spirit animals" ou "totems" sem saberem o que realmente são...e há uma grande mistura disto com familiars. Não apropriem cultura índigena, vocês não têm totems nem spirit animals, ok? 

Já ouvi falar bastante bem do livro Cunning Folk and Familiar Spirits que estuda as confissões para a Inquisição de praticantes e também o folclore popular que rodeava estas entidades, caso queiram ler um livro académico sobre o assunto. 

 Se alguém quiser tirar os pontos-chave deste texto, então são os seguintes:

  • o vosso animal de estimação (pet) não é o vosso familiar 
  • um familiar é um espírito que um PRATICANTE DE BRUXARIA faz um pacto
  • spirit animals e totems não são familiars, não usem esse termo
Fontes:

https://medium.com/@EquanimousRex/are-pets-familiars-1e50b8c4748b
https://slavicpolytheist.wordpress.com/2017/06/24/familiar-spirit-vs-pet/
https://traditionalwitchcraft.wordpress.com/2019/01/31/no-your-pet-is-not-your-familiar/
https://eclecticwitchcraft.com/pets-not-witch-familiar/

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