domingo, 3 de maio de 2020

Bruxaria e a Morte

São muitas as formas como a bruxaria e a morte se interligam, portanto este vai ser um daqueles meus textos longos. Sim, parece que só consigo fazer textos muito curtos ou muito longos. Mas, bem, poucas pessoas podem pensar que vários praticantes escolhem focar as suas práticas em torno da morte, mas de facto isso acontece. Não é a vertente mais popular, e também não significa que estes adeptos não tenham medo da morte, tanto a deles mesmos e daqueles que amam. É difícil de definir o tópico que vou falar, mas vou tentar: irei falar sobre algum simbolismo ligado à morte, literal ou não, nas práticas de bruxaria; também irei falar sobre praticantes que focam os seus estudos e práticas na morte; mencionarei algumas práticas em relação à morte; também irei falar de trabalho com espíritos; para além disso, vou referir algumas práticas que utilizam restos de animais, como ossos. Este texto não é para qualquer pessoa, mas acho importante que leitores que sigam alguma espiritualidade, quaisquer que seja, leiam um pouco sobre a morte, também para poder compreender quais são as suas visões acerca da mesma, o que fariam caso um familiar ou um amigo eventualmente falecesse e como iriam interligar esse acontecimento com as suas crenças. Tudo isto são tópicos que todas as pessoas se vêem confrontadas. Muitas pessoas gostam de pintar a bruxaria como algo super positivo - e é - mas não nos podemos esquecer da realidade do mundo, pois as pessoas falecem. Parece que as opiniões sobre a bruxaria são sempre extremistas, pintadas de um lado muito sombrio ou o total oposto. A verdade é que a bruxaria é ambígua, tal como a morte de certa forma. Aviso desde já que este texto é meramente informativo e não é destinado a incitar iniciantes ou novatos a tentarem sequer fazer alguma das coisas que estou a descrever aqui. Isto são práticas altamente avançadas.

Na teoria mágica, por vezes são utilizados símbolos relacionados com a morte que não são literalmente sobre morte física, basta nos lembrarmos da carta da Morte em tarot, e também temos os exemplos de que as velas em forma de caveiras, muito comuns na magia afro-brasileira, são usadas para manipularem alguém ou para amarrações. Apesar destas velas assustarem numa primeira vista, as velas em forma de crânio representam a mente. É uma associação que faz sentido quando a reconhecemos, no entanto não é o que pensamos numa primeira vista. É uma boa forma de alterar como outros pensam sobre ti ou até introduzir amor próprio na tua vida, dependendo da correspondência de cor e do ritual que pretendam fazer, podendo se fazer muitos rituais diferentes com as mesmas velas de figura. Isto acontece que a tradição de velas (em específico) no continente americano é bem diferente da forma tradicional de utilizar velas na europa, para além disto ninguém pensa automaticamente que uma vela em forma de crânio serve para introduzir algum pensamento numa pessoa. Como referi anteriormente, o simbolismo das caveiras é comum para mind work, ou seja, para controlar alguém, e também para quebrar maldições. No entanto, na bruxaria da morte utilizam-se crânios reais de animais, pois é uma forma de se conectarem com a energia da morte, trabalharem com o espírito do animal ou para invocarem algum espírito em específico - e este é outro uso do simbolismo dos crânios na magia. Cada pessoa associa o seu simbolismo, no entanto os significados de certos símbolos nem sempre são óbvios, como no caso de velas em forma de crânio poderem ser utilizadas tanto em trabalhos relacionados com a morte como também em manipulação da mente de alguém. Pode parecer estranho, mas é assim que as coisas evoluem com o tempo. 

Este caminho significa utilizar a morte como forma de empoderamento. Este é mesmo um caminho que algumas pessoas seguem (death witchcraft). É um esforço de reflexão acerca da morte e o que esta significa para o praticante. Todos nós somos confrontados com a morte, seja uma morte espiritual ou simbólica de aspectos na nossa vida, ou a morte de pessoas que amamos. Este tipo de praticantes honra os espíritos dos mortos (fantasmas, ancestrais) e também o poder da morte em si (finais, ressurreições, novos começos, ciclos da vida, transformação). Muitas vezes, estes praticantes investigam as várias práticas em redor da morte em todo o mundo, com especial destaque em práticas únicas como na América Latina, em que a conexão com os mortos e os ancestrais existe sob diversas formas, não só com o Día de Los Muertos mas também com as Ñatitas da Bolívia, entre outros exemplos, dentro deles o culto dos mortos no Peru (um exemplo é Tullumpapay, em quechua). Há que relembrar que a manutenção de práticas tradicionais-indígenas de forma geral é uma forma de resistência à opressão cristã, colonialismo e imperalismo. Como devem imaginar, os brancos nunca acharam grande piada às práticas ancestrais do continente americano em relação aos mortos, apesar de hoje em dia muitos destes povos combinarem o cristianismo com as suas próprias tradições, e o papel da Igreja dentro disto tudo não tem sido o mais correcto. É meio complexo falar de tradições nativas em países colonizados, mas estes espaços são um exemplo de práticas diferente em relação à morte. De forma geral, as culturas não-cristãs / pagãs sempre tiveram rituais e alturas específicas do ano em que se fazia o culto dos mortos. Nestes dois exemplos que dei, as ossadas passaram a ser guardadas nas casas destas pessoas ao longo do tempo, em especial os crânios, estes que são adornados com gorros, e são cultuadas, alimentadas espiritualmente, e estes espíritos oferecem protecção e milagres. Muitas vezes, o nome dos espíritos é revelado em sonhos. Eu iria me perder se fosse falar de todas as ligações dos povos com a morte, pois as práticas são todas diferentes. Se este é um assunto que o leitor tem desleixado, aconselho a se informar de acordo com a sua tradição, cultura ou panteão quais são as práticas em relação à morte, a história das mesmas, como lidar espiritualmente com a morte, como cultuar alguém que morreu, ou quais são as divindades/deuses/deusas relacionados com a morte e com os mortos. Também peço tolerância cultural em relação a diferentes culturas.

O uso de restos humanos é comum em algumas partes do mundo, mas aqui é que vai o detalhe: esses povos sabem que o seu local de descanso é temporário, pois os corpos são postos em valas comuns, outras vezes são retirados das campas e levados para casa dos familiares, como no caso de alguns locais na Indonésia em Celebes do Sul, portanto isso diverge muito de cultura em cultura; para além disso, eles têm a cultura dos restos humanos poderem ser levados pelos outros; como na cultura de ocidental isso não é possível pois não existe, utilizar restos de outras pessoas, muito mais não sendo ancestrais, é muito errada, pois é um roubo e uma ofensa ao espírito e aos familiares. O espírito de certo que não vai consentir, pois quererá ficar no seu local de descanso. Eu falo de forma imparcial mas eu tenho sempre as minhas opiniões. Houve um caso muito controverso de uma pessoa branca que roubava campas de pessoas de cor, cujas campas não estavam protegidas, não tinha manutenção e as ossadas eram de fácil acesso, e essa pessoa fê-lo para vender e utilizava como ingredientes em rituais (e não para culto sequer) e para se "safar" disso começou a utilizar a tolerância com outras práticas de povos nativos/indígenas/de cor para isso. Isto não é correcto. Apesar de muitos médicos, arqueólogos, etc terem restos humanos em casa, eles não acreditam no lado espiritual e não se importam se estão a incomodar o descanso de alguém. Restos humanos não são ingredientes de feitiços que podem ser deitados fora. Que isso fique muito claro, estou a referir-me a práticas respeitosas e que cultuam os mortos, e não que fazem lucro dos mesmos. Jamais incomodem o descanso de um defunto e jamais retirem ossadas. Isso é roubo. Jamais tentem roubar ossadas por mais antigas que possam ser. Não incomodem cemitérios de qualquer cultura. O vosso entendimento da cultura de indígenas não é aplicável a todos os povos, pois cada um destes terá rituais diferentes acerca da morte. Muitos povos cremam os seus corpos. Jamais pensem "ah, na cultura deste povo não tem mal!" pois vocês não pertencem a essa cultura. Estou apenas a expor práticas culturas fechadas que conheci através dos meus estudos. Jamais tentem replicá-las numa descoberta pelos vossos cultos acerca da morte. Estudem acerca das tradições da vossa cultura e respeitem a dignidade e integridade dos defuntos.

Bruxaria da morte é uma prática pouco falada, mas muito interessante. O que é que estes praticantes fazem de diferente? Bem, focam muito da sua prática em redor da morte. Isso não quer dizer que se limitem a isso mesmo, e também não quer dizer que escolham os mesmos rótulos, que façam as mesmas coisas ou que sigam a mesma religião. Este texto não é apenas sobre aqueles que se identificam com este título, pois é também uma forma de aprofundar a relação da bruxaria e da espiritualidade com a morte e os espíritos - mas, em como todas as áreas, muitos praticantes dedicam o seu caminho a encontrar a emancipação através da morte, muito de encontro a um movimento recente chamado "death positive". Outros focam-se em cuidar dos mortos e dos espíritos dos mesmos, como atendendo cemitérios e ajudando espíritos a seguir em frente na outra vida. Também há muito esforço de ajudar os vivos no processo de luto. É comum dar oferendas aos mortos e cuidar deles. Muitas vezes, estas práticas envolvem o uso de terra de cemitério, ossos, insectos mortos e outras partes de animais. Há muitos praticantes que admiram a chamada vulture culture e cuidam dos corpos de animais que morreram naturalmente. Outros praticantes focam-se no culto dos ancestrais. Outros praticantes ainda seguem profissões ligadas à morte. Outras pessoas apenas investigam sobre como lidar com a morte quando a mesma acontece a alguém próximo - tudo é correcto. Isto é só um texto que aprofunda a relação entre dois tópicos - bruxaria e morte.

As crenças na vida após a morte variam imenso, desde a ideia de reencarnação, céu, inferno, entre outros. De forma geral, este tipo de praticantes costuma ser crente ou espiritual, pois acreditam na vida para além da morte, no entanto não há uma religião específica, visto que todas as religiões e espiritualidades têm crenças e rituais diferentes. Muitos praticantes também praticam culto politeísta a divindades/deidades associadas à morte e aos mortos. Atenção que este "caminho" não é "magia negra" e eu não encorajo o uso destes termos na teoria mágica. A morte não é algo negativo ou maldoso por si, é simplesmente parte da vida. Deuses ligados à morte não são necessariamente negativos.

Os espíritos na magia aparecem de diversas formas, até por vezes não humanos como fadas ou elementais. Na bruxaria da morte, os espíritos mais comuns costumam ser de humanos, como os antepassados/ancestrais, mas por vezes também de animais. Existem vários termos que estes praticantes utilizam, como os psychopomp, um termo que define os guias das almas dos mortos no outro mundo.

Aviso desde já que não consigo falar por todas as tradições, pois cada pessoa tem um fundo cultural diferente e eu tenho o meu. Sei muito bem que práticas afro-brasileiras têm uma grande base de trabalho de ancestrais/espíritos, no entanto não consigo falar por estas espiritualidades em específico, portanto se possuem algum interesse em lerem sobre essas práticas recomendo procurarem pessoas da comunidade, como perguntarem no twitter pois existem imensas práticas (como Candomblé, Umbanda, Santería, Voodoo e Hoodoo, entre outros) que têm as suas próprias tradições no que diz respeito ao culto dos mortos, comunicação com os mesmos, e de certo que terão as suas visões acerca da morte. Não me sinto bem em falar no nome de culturas que não pertenço nem conheço o suficiente, portanto vou apenas aprofundar aquilo que sei dentro da minha prática que tem uma matriz muito mais europeia. Fica aqui o convite para alguém da comunidade falar sobre as suas visões acerca da morte de acordo com as suas tradições, pois estarei sempre disponível para aprender mais sobre outras culturas. 

Ancestrais

Sobre os ancestrais e os antepassados, as práticas variam bastante. Os ancestrais podem ser pessoas da nossa família, etnia ou até de certos grupos - existem pessoas que prestam culto a pessoas da comunidade LGBTQ+ ou até a praticantes famosos que já faleceram. Em todas as tradições há denominações diferentes e até categorizações dos diferentes ancestrais. Muitas pessoas acreditam que os ancestrais atingiram clarividência e iluminação na morte, portanto não costumam se incomodar com diferenças em termos religiosos e são bastante bons a dar conselhos e a ajudar a família (de sangue ou não). Geralmente, as pessoas chamam pelos ancestrais e estes protegem-nos. Muitos de nós somos protegidos pelos nossos ancestrais sem o sabermos. A diferença destes com qualquer outra entidade de protecção, pois existem várias, é que estes são espíritos de pessoas - humanos - que já faleceram. É, portanto, um culto dos mortos. Algumas pessoas contactam familiares mortos utilizando terra das suas sepulturas ou itens que lhes pertenciam. Outras vezes pedem alguma mensagem ou clarificação e são contactados em sonhos. As oferendas variam de acordo com a etnia, cultura e tradição, mas as mais famosas são as seguintes: café, pão, vinho, tabaco, leite, velas, arte, flores, bolos e biscoitos, incensos ou quaisquer itens que acham que o espírito em particular poderá gostar. Este tipo de culto faz parte de diversas culturas e une as pessoas com a sua ancestralidade e cultura originária. Desde as Américas até à Ásia que encontramos altares para os familiares que já faleceram. Para além disto, os praticantes afirmam que de forma geral os ancestrais são espíritos mais pacientes, são comunicativos e cooperam bastante.

 Os espíritos dos ancestrais são aqueles que contribuíram para a pessoa que és hoje, moldaram e abriram o teu caminho, portanto ninguém é obrigado a fazer culto a familiares que foram abusivos, por exemplo. Também há quem considere que o culto a ancestrais só de deve fazer a antepassados e não a pessoas próximas, pois aí já se entra num assunto de luto, sendo diferentes tipos de culto, mas isso é uma questão para outro dia. E também queria adicionar que nem toda a gente considera que os espíritos ficam "bons" na morte, pois existem espíritos negativos. Mais uma vez, o trabalho com espíritos é complicado! Edição de 29/06: Para além disso, ancestrais são todas as pessoas que deram origem à vossa linhagem (fonte 4#) portanto não necessitam de os ter conhecido em vida - recebi esta questão e achei importante esclarecer; existem pessoas que cultuam figuras históricas activistas dos direitos LGBTQ+ que consideram como ancestrais, portanto a definição de ancestrais é totalmente única e pessoal e ninguém tem o direito de vos negar isto; no mesmo seguimento, um ancestral vosso poderá ser o vosso tetravó que nunca conheceram, e se vocês algum dia receberem sinais de que algum ancestral está a olhar por vocês é importante tentarem identificar quem é, pedir sinais em sonhos, meditações, repetições ou padrões, para além de poderem utilizar métodos divinatórios ou de comunicação direta com entidades.

Podem começar o caminho de ligação com o mundo dos espíritos criando um altar para os vossos ancestrais. Será um local de culto e de foco no vosso trabalho, para além de ser o local onde deixam oferendas. O simples facto do praticante se lembrar deles, construir algo para eles e começar a honrá-los, deixando-lhes oferendas, é o início do estabelecimento de uma relação com eles. As relações com os espíritos demoram a se construir, é preciso ser paciente. Como qualquer pessoa diria, trabalhar com divindades, deuses ou deusas, entidades e espíritos não é trabalho para iniciantes. É algo que se começa a construir depois de aprendermos o básico da Arte. Criar uma relação com os mortos tem a vantagem destes ajudarem no plano espiritual. No entanto, não abusem dos espíritos. Já referi numa publicação em há muitas pessoas que têm práticas imorais com entidades, como prendê-las em certos recipientes, etc. Depois de começarem a cultivar uma relação com os mortos podem começar a trabalhar com divindades ligadas à morte/mortos e forças antropomórficas da morte.

Necromancia

Apesar da imagem moderna ser sobre "ressuscitar os mortos", na realidade necromancia é apenas uma forma de divinação através dos mortos, obtendo respostas da comunicação com espíritos (ou então invoncando-os). Falar com os mortos pode trazer-nos muito conhecimento. Este tipo de divinação pode ser feita de diferentes formas como invocações, divinação com ossos, pêndulo, e muitos outros rituais.

A necromancia é uma prática dentro da bruxaria da morte, mas não é tudo sobre isso, pois esta mesma envolve trabalhar com a morte como uma força. De forma geral, muitas pessoas identificam a necromancia como uma forma de alta magia cerimonial que invoca espíritos de pessoas que já faleceram, apesar do termo poder designar qualquer divinação com espíritos.

Altares e a Morte

Símbolos da morte sempre foram comuns em altares seja qual for a religião, no entanto o significado da morte altera-se de cultura para cultura. Um altar da morte poderá ter diferentes fins, mas geralmente está relacionado com os ancestrais, sendo o local onde são deixadas oferendas e lembranças dessa mesma pessoa, como fotografias. Também há quem honre os espíritos dos animais de companhia que faleceram. Existem também outros itens comuns neste tipo de altares, portanto vou dar alguns exemplos: prato de oferendas; representações artísticas da morte como caixões, sepulturas, esqueletos, entre outros; ossos, insectos e plantas mortas e outras partes de animais ou humanos*; terra de cemitério; itens que pertencem aos ancestrais; incensário ou recipiente à prova de fogo; velas; estátuas de divindades relacionadas com a morte; entre outros.
*como já afirmei, não recomendo de todo roubarem sepulturas, pois é crime e não faz parte da nossa cultura (europeia).

Ferramentas: Terra de Cemitério

É um ingrediente comum encontrado nas lojas esotéricas, especialmente nas vertentes afro-brasileiras. Muitas vezes, símbolos ligados à morte servem para "enterrar" certos assuntos em trabalhos, como nos rituais de caixões, algo que já referi acima. Tem, portanto, o seguimento de uma morte simbólica de alguma situação, sendo um ingrediente comum em rituais para "acabar" com alguma coisa. No entanto, os usos de terra de cemitério variam bastante, visto que este ingrediente é uma forma física do que é o fim da vida.

Por vezes, a terra de cemitério é utilizada para causar sofrimento à vida de uma pessoa. Os usos também podem incluir comunicação com o espírito em específico, protecção, banimentos, trabalhos de ancestrais, amarrações, maldições ou apenas rodear o praticante da energia da morte. Existem dois tipos de terra de cemitério: a terra retirada da propriedade do cemitério em si, ou terra retirada de uma campa em específico. A forma mais comum é a primeira, pelo menos do que tenho conhecimento. Geralmente a terra que é vendida em lojas esotéricas é retirada do jardim que é o cemitério em si. No entanto, existem praticantes experientes que trabalham com espíritos que sabem colectar terra de sepulturas. Por vezes as terras de sepulturas são retiradas de 9 túmulos. Com este último exemplo, a campa em específico irá determinar o uso da terra. Muitas vezes, invoca-se o espírito de um médico em certos trabalhos de cura, por exemplo, e por isso praticantes retiram terra das campas destes mesmos. Também há quem retire de encruzilhadas de cemitérios para ajudar em trabalhos de vida passada ou projecção astral. Esta terra é uma ligação ao defunto, dono da sepultura de onde a terra foi tirada, e assim esse espírito pode auxiliar em rituais. Em inglês, dir-se-ia que existe a "graveyard dirt" e a "grave dirt". Este ingrediente pode parecer um pouco taboo para pessoas novas na comunidade ou para indivíduos que não pertençam a uma tradição que o utilize, logo relembro que se não se sentirem confortáveis não têm de utilizar este ingrediente, nem muito menos serem vocês a colectá-lo. Afinal, as práticas de cada praticante são diferentes e retirar terra de cemitério não é para iniciantes.

Portanto, para recordar, os usos de terra de cemitério de forma geral: necromancia e comunicação ou invocação dos espíritos dos mortos; para invocar a energia da morte; protecção; banimentos; amarrações; pôr fim a situações, abandonar certos hábitos, deixar alguma situação para trás. Já os usos de terra de uma sepultura em específico: envolve comunicação com a entidade em particular, geralmente de um familiar que já faleceu; pedir características específicas da entidade a quem pertencia a terra, como a coragem de um soldado, conhecimento de alguém mais velho, cura por um ancestral ou médico; também se pode pedir protecção, conselhos e direcções dos mortos; veneração e culto dos ancestrais; entre muitos outros usos.

Devo alertar que esta não é uma prática para iniciantes e recomendo que conheçam bem a entidade pois vocês vão ter responsabilidade para com a mesma, afinal estão basicamente a levá-la para casa e a indicar que a sua presença é bem-vinda. As pessoas que fazem o culto da morte não podem ter uma grande advertência a espíritos e aceitar que eventualmente vão estar rodeadas deles e serão um íman para os mesmos, pois as entidades poderão vos procurar para pedir ajuda. Banimentos e protecções são recomendáveis, pois podem entrar em contacto com alguma entidade menos boa. Já fiz um texto acerca dos cuidados a ter na bruxaria, recomendo lerem se são iniciantes. E repito, trabalho para espíritos não é para pessoas que não querem viver rodeadas de espíritos.

Etiqueta de cemitério

Muitas crenças dizem que é necessário pedir autorização ao espírito guardião do cemitério - gatekeeper, este que seria o espírito mais velho do cemitério e que toma conta de toda a gente - para poderem retirar terra da propriedade de um cemitério. Outros pedem autorização ao espírito específico da campa que vão escolher retirar, mas não se deve de fazer a uma pessoa qualquer sem termos formado uma conexão com esse mesmo espírito. Esta prática é muito delicada e é necessário muito cuidado para não ofender as entidades. Existe muita etiqueta quanto a visitar cemitérios e para lidar com a morte sem ofender a susceptibilidade de ninguém, muito menos do mundo dos espíritos. Isto são relações que se constroem. Não basta ir lá uma vez e retirar a terra, vocês vão ficar assombrados no pior sentido possível.

 É necessário deixar oferendas e ser muito respeitador. Muitos praticantes depois de retirarem terra de cemitério fazem diversas paragens ao longo do caminho para casa, pelo menos umas três, para confundirem os espíritos que os possam estar a seguir. É também aconselhável criar uma conexão com as entidades existentes no cemitério e deixar muitas oferendas se vão retirar algo. Ser assombrado por espíritos zangados não é divertido. Investiguem sempre a história do espaço em questão. Nunca retirem itens de campas de cemitérios, mesmo que pareçam apenas pedras, pois podem ser oferendas de alguém. E acima de tudo, nunca se retira itens deixados pelas famílias dos defuntos. Arranjar flores caídas, atender às campas, ser cuidadoso com o que se faz é aconselhável. Nunca pisem as campas, utilizem censo comum.

Afirmo também para terem cuidado na manutenção de cemitérios: endireitar flores caídas tudo bem, mas não devem mexer nas pedras em si, pois podem estar danificadas e fragilizadas e depois podem acusar-vos de vandalismo. Existem muitas campas mal tratadas, por vezes até é possível observar jazigos partidos com ossadas a saírem de lá. No entanto, não é aconselhável se meterem em sarilhos. Também nunca interrompam o luto das pessoas nem retirem as suas oferendas.

EDIT: 02/01/20: post aprofundado acerca de etiqueta de cemitério, recomendo a leitura!!!!!

Comunicação com espíritos

Existem várias formas de comunicação com espíritos dentro da alta e da baixa magia, algo que daria para uma publicação por si. A mais conhecida seria a ouija board, mas esta não é a única. Existe a escrita automática, pêndulos e até instrumentos electrónicos para este fim. Muitas vezes a crença acerca de espíritos vai de encontro com o kardecismo: os espíritos estão ao nosso redor e todos podemos nos comunicar com eles, apenas há pessoas que nasceram com certos dons mas é possível trabalharmos a nossa intuição e a ligação com o paranormal. Não acredito que ouija seja um portal como muitos dizem, simplesmente não se trabalha com espíritos se não queremos estar assombrados. Ouija boards não são brinquedos, afinal estamos a convidar entidades para o nosso espaço, e se não temos experiência nem nos sabermos proteger estamos basicamente a abrir a porta para qualquer entidade, incluindo más, ficarem no nosso espaço. Por isso, alguns praticantes não se comunicam com espíritos em casa, no entanto isso não é uma solução por completo, pois os espíritos ficam agarrados a pessoas, espaços e objectos. Para além disso, não se invoca se não se sabe banir. O banimento é muito importante no trabalho com espíritos. No entanto, nem todos concordarão comigo certamente. Não acreditem simplesmente na minha palavra, confirmem sempre com outras pessoas na comunidade, especialmente aquelas que têm conhecimento de trabalho com espíritos (a maioria dos praticantes não gosta muito de mexer com este assunto). Afirmo já que a bruxaria da morte não é uma prática para iniciantes e nem é algo que se desenvolver em pouco tempo, é preciso muito respeito, estudo e dedicação, também para aperfeiçoarmos as nossas capacidades. Muitas vezes também se pede o auxílio de espíritos, guias e ancestrais durante trabalhos e na divinação.

No entanto, não são necessárias ferramentas para nos comunicarmos com espíritos. As ferramentas são apenas um intermediário que facilita a comunicação. Muitos praticantes visitam cemitérios regularmente, cuidam dos mesmos e comunicam-se lá com as entidades. É necessário ser paciente, conhecer bem o espaço, estar em silêncio e indicar que estamos disponíveis para que alguma entidade se chegue à frente. Muitas pessoas meditam e estabelecem comunicação dessa forma. As capacidades de comunicação podem se desenvolver ao longo do tempo.

Também podem fazer cerimónias para se comunicarem com espíritos. Investiguem muito bem sobre os perigos de trabalho com espíritos, pois um deles é que muitas entidades mentem acerca da sua identidade. Não acreditem no que as entidades dizem se não têm capacidades de sentir a energia dos espíritos. As entidades vão dizer tudo aquilo que vocês querem ouvir. A divinação na bruxaria da morte costuma também envolver algumas práticas como a divinação com ossos de animais, algo comum na bruxaria afro-brasileira e americana. Esse tópico é muito interessante por si. O uso de ossos também pode ter a finalidade de apenas se conectarem com a energia da morte para facilitar a comunicação com entidades.

Samhain

O Samhain (não se pronuncia da forma como se escreve) é um festival da roda do ano neo-pagã inspirada na real celebração dos povos celtas - historicamente comprovado. No hemisfério norte, o Samhain começa no dia 31 de Outubro e algumas pessoas estendem a celebração por mais uns dias. Estas práticas deram origem ao famoso Halloween e foram incorporadas na fé cristã com o Dia de Todos os Santos/Dos Finados, visto que era costume nos povos europeus celebrar os mortos por volta desta data, portanto foi imposta uma prática cristã para incorporar as tradições pré-existentes. Algumas fontes neo-pagãs afirmam que esta é a altura em que o véu entre os vivos e o mundo dos espíritos está mais ténue, juntamente com Beltane, o festival oposto na roda. Este festival, Samhain, ditava o fim da época de colheitas. Começava agora a parte mais escura do ano, no entanto este festival é de origem cultural, não tendo nenhum evento astronómico associado - está entre o equinócio de outono e o solstício de inverno, sendo este o dia mais curto do ano. Algumas crenças neo-pagãs dizem que o Samhain seria o fim do ano celta. Tal afirmação é complicada, pois os celtas viveram em diversos ambientes e os povos pagãos eram muito dependentes dos climas em que viviam. Por exemplo, sabe-se muito pouco acerca da Gália. Para além disto, a cultura celta não tinha uma visão de "final", nem sequer de início, pois a vida era cíclica. A verdade é que Samhain era o último festival da colheita e anunciava a parte escura do ano. É possível que em alguns lugares os celtas apenas observassem duas estações (quente e fria). Existem muitas tradições ligadas a este festival, muitas mais do que as que eu enumerei, e recomendo imenso lerem sobre esta tradição pois é muito vasta e interessante. Para além disso, recomendo lerem acerca das práticas das vossas tradições. Por exemplo, a cultura nórdica tem práticas específicas ligadas aos mortos, como diferentes versões do Outro Mundo, aliás, são vários, e entidades ligadas aos mortos também.

O facto dos espíritos estarem mais activos nesta altura levou ao uso de máscaras para os afastar, especialmente os maus, daí as pessoas se mascararem no Halloween. O Magusto/Magosto ou São Martinho é uma celebração da península ibérica que muitos estudiosos apontam como sendo uma reminiscência dos cultos pagãos da península, portanto é basicamente o "nosso" Samhain - sim, as castanhas eram para os mortos, mais concretamente os ancestrais. Leiam sobre a tradição do Magusto e o que se costumava fazer (e o que se faz em alguns locais). Lembrar que os celtas estiveram no território que é a península ibérica.

Há muito que se possa dizer sobre este festival, sendo dos mais populares entre os praticantes. Muitos símbolos duraram até aos dias de hoje como o Jack O'Latern, bastante antigo e eram feitas coisas similares em outros vegetais. Não se sabe muito bem para que estes serviriam, visto que algumas fontes dizem que serviam para guiar os espíritos até casa, outros diz que servem para afastar maus espíritos. Existem alguns mitos relacionados com esta prática. Na Península Ibérica também existe a nossa versão de Jack O'Latern (coca/coco), ligados ao culto das cabeças dos celtas.

Se estiverem no hemisfério sul, alguns praticantes optam por festejar o Samhain no dia 1 de Maio. Esta é uma altura de honrar o ciclo da morte/renascimento, os nossos ancestrais e aqueles que já faleceram. Muitas pessoas afirmam que os espíritos ficam realmente muito mais activos nesta altura, portanto muitos rituais ligados aos espíritos são feitos neste festival e por volta do mesmo. É também uma altura em que devemos ter precaução e nos protegermos, pois esta é uma altura muito atribulada no plano espiritual. Por essa razão, algumas pessoas tendem a evitar fazer alguns rituais que os deixem mais vulneráveis a ataques psíquicos. Este é um bom artigo sobre Samhain, mas também recomendo vídeos no youtube em que as pessoas explicam a história e quais são as coisas tradicionais para se fazer neste festival como forma de o celebrar.

EDIT 02/01/20: toquei levemente no tópico de reinventar o paganismo tendo sempre cuidado em reconhecer o que são recriações recentes do neopaganismo mas que são ditas como "antigas" neste post

Conclusão

A morte sempre foi um símbolo comum na iniciação mágica, fosse uma morte espiritual/do ego ou até mesmo morte simulada, comum em rituais de iniciação de religiões de mistério e de bruxaria. Afinal, a espiritualidade atinge-se após o que as pessoas chamam de "spiritual awakening". A bruxaria é também sobre a transformação, a alquimia das ervas que usamos ou da energia. Muitos praticantes vão pelos caminhos do "shadow work" e da magia do caos, pois consideram que a bruxaria não é tão positiva como as pessoas têm pintado ultimamente. Considero que tudo tem um equilíbrio e que negar uma parte essencial do mundo e de nós mesmos não é o caminho de todos.

O tema da morte não é comum em "lightworkers", apesar de serem estes os praticantes que recebem mais atenção nas redes sociais. Muitas pessoas na comunidade tentam mostrar que a morte faz parte da vida e dos ciclos da natureza. Os crânios também são símbolos de iluminação espiritual, sabedoria e renúncia do ego. Essa é a razão de muitos praticantes representarem a morte nos seus altares. Os ossos vão no mesmo sentido. Muitas pessoas interpretam como um memento mori, ou seja, uma lembrança de que todos vamos morrer eventualmente. É uma forma de evitar negacionismo da morte. As caveiras sempre estiveram ligadas ao culto dos mortos e dos ancestrais - exemplos disso era o culto das cabeças que os celtas praticavam; e muita da iconografia religiosa da América latina, como já referi as Ñatitas, estas que têm um festival chamado Día de Las Ñatitas, no entanto práticas similares não estão limitadas à Bolívia.

Recomendo também a leitura de Até à Eternidade de Caitlin Doughty, uma criadora de conteúdo death positive. Este livro aprofunda os diversos rituais acerca da morte no mundo, apenas para enumerar alguns. Muito do conteúdo que esta criadora faz é interessante, sempre à volta da morte e do significado da mesma, impondo algumas reflexões de como cuidamos dos mortos e da capitalização recente da morte na ocidente ocidental, para além da negação da morte. A sociedade ocidental evoluiu de uma cultura de cuidar dos mortos para uma que não quer sequer pensar nisso. Recomendo lerem sobre espiritismo/kardecismo, pois é uma doutrina muito interessante que fala sobre espíritos. Basicamente todo o espiritualismo que se desenvolveu na época vitoriana é um ótimo tema de leitura. Eu recomendo lerem sempre várias escolas/tradições para descobrirem coisas novas e quais são as vossas crenças. Façam-no sempre com respeito. E recomendo lerem acerca da história da cultura dos mortos na Europa, com destaque as práticas vitorianas em relação à morte (por exemplo, sempre que alguém morria tapavam os espelhos para impedir que o espírito da pessoa ficasse preso; também lhes deixavam uma moeda, uma prática que pode vir desde os gregos como forma de pagar o transporte para o outro mundo). Outra cultura com práticas muito interessantes sobre a morte é a cultura antiga egípcia.

Afinal, então qual é a correlação entre a bruxaria e a morte? Bem, essa é uma resposta complicada. Alguns praticantes prestam especial culto aos mortos, trabalhando com as forças dos mesmos ou com a da morte em si. No entanto, a maioria das tradições mágicas e das culturas e religiões têm um culto específico dos mortos. Muitas pessoas na comunidade da bruxaria têm alguma religião associada - paganismo, cristianismo, o que for - e poderão desejar intercalar a sua espiritualidade com as suas práticas, seja de que forma for. Existem centenas de tradições que envolvem a comunicação com o outro mundo, desde as médiuns (seja de incorporação ou só de comunicação), às tradições kardecistas, tudo e mais alguma coisa. Muitas vezes a comunidade ocidental, de matriz cristã, olha para outros ritos relacionados com a morte ao longo do globo e não os respeita por serem diferentes. Temos a tendência de achar que a nossa forma de fazer as coisas é a melhor. É necessário aprender a respeitar o significado da morte nas várias culturas, visto que nem em todo o mundo tenta esconder os mortos e muitas culturas até celebram a morte.

Querer intercalar os espíritos e a morte na nossa prática é uma decisão individual de cada praticante. Muitos bruxes nem sequer gostam de comunicação com espíritos Há praticantes que abobinam as ouija boards (mas depois tentam se comunicar de outras formas...mas os mitos acerca de tabuleiros de ouija é um post para outro dia). Nem todas as pessoas encontram paz num cemitério ou então nem acreditam na vida para além da morte, enquanto outros fazem culto a deuses ctónicos. O culto à Santa Muerte deveria ser o mais limitado possível às pessoas dessa cultura, atenção. Verifiquem com a vossa tradição/cultura quais são os deuses ou deusas ligados à morte para evitarem apropriar a cultura de outros, mas esta é a minha opinião. Leiam sobre a ligação de deuses pagãos da morte com a agricultura. Para lerem mais sobre trabalho com a morte e entidades vejam as tags desde post, pois falo bastante sobre o assunto. 

Os ancestrais oferecem-nos protecção, conselhos, sabedoria e assistem nos rituais. Muitas vezes, em algumas culturas pedem-se milagres aos espíritos. Este tópico é tão variado, pois há mesmo muita coisa possível de se falar. Este não é um caminho para quem quer ser rebelde, mas sim uma prática que exige muito estudo e respeito. Existem mesmo pessoas que trabalham de forma geral apenas com os espíritos dos mortos e com a morte em si, com plantas mortas, com o fim de ciclos, entre outros. Espero que este texto tenha sido informativo e que, acima de tudo, tenha auxiliado algum exercício de flexão. Bons estudos.

Recomendação de leitura:
Fontes:
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